Não é todos dias que um dos principais festivais de cinema do globo atribuiu um prémio de interpretação a não-atores. Locarno, por sua vez, tem-no feito algumas vezes, e depois de Vitalina Varela conquistar o prémio de melhor atriz em 2019, no filme homónimo de Pedro Costa, na edição 2021 o prémio de melhor interpretação masculina foi partilhado ex aequo por Mohamed Mellali e Valero Escolar, dois canalizadores na vida real que foram transformados em protagonistas da comédia dramática “The Odd-Job Men”.
No filme, eles desempenham o papel de “faz tudo”, seja canalização, eletricidade ou até mesmo apenas meros ouvintes dos seus clientes. Porém, entre os dois homens existem vários atritos desde o primeiro dia que se conhecem.
Foi timidamente, como que confusos com aparato e protocolo de uma entrega de prémios, que a dupla subiu ao palco do GranRex em Locarno para receberem a estatueta de melhor interpretação masculina. A dupla, além de agradecer a familiares e amigos, dedicou também o prémio ao seu parceiro de filme, Pep Sarv, também ele um não-ator que partilha com eles algumas cenas.
Quem também foi inevitavelmente mencionada, pois “ensinou-lhes” tudo o que tinham de aprender para atuarem nos seus papéis, foi a cineasta catalã Neus Ballús, já habituada a trabalhar em questões laborais e na vida comum dos trabalhadores em obras anteriores, como “Staff Only”, que se desenrolava em África. “A nossa profissão define-nos muito, dá-nos uma missão no mundo. Um jornalista permite-te fazer perguntas, chegar às pessoas. Ser cineasta é um privilégio igualmente. No “Staff Only” havia claramente uma relação de poder, aqui há uma colisão entre os que trabalham e os que ficam a ver. Há uma relação de classes, cultural e económica. No mundo do trabalho existe muito essa relação de classe, como quando estás num local e entra alguém para limpar e quase nem olhas para ele, como se não fosse um ser humano. Por outro lado, essa pessoa também tem acesso a algo íntimo, teu. Esta inquietude de olhar o outro atraiu-me”, explicou-nos a realizadora em Locarno, onde o filme fez as delícias da audiência.

Ballús , cujo companheiro da mãe, que é para si um segundo pai, era canalizador antes de se reformar, encontrou nas muitas histórias que ouviu dele o desejo de fazer este filme. Pequenas histórias, algumas refletidas no filme, como a de clientes que inventavam problemas simplesmente para terem companhia, não havendo na verdade qualquer reparação a fazer.
Uma das marcas da realizadora no seu trabalho é a forma “documental” como captura as cena, sendo naturalmente óbvio que ao escolher canalizadores reais para fazerem um filme sobre eles mesmos, as marcas do “real” estão lá: “Não gosto de catalogar o filme, mas é claramente um híbrido. Um híbrido entre o documentário e a ficção, mas igualmente entre a comédia e o drama, a ligeireza e a profundidade. É um filme que circula em terreno pantanoso entre muitos géneros diferentes. Sempre me movi neste terreno híbrido e todas as personagens que surgem aqui não são atores e fazem uma versão deles mesmos. Trabalhei com eles durante dois anos. Fazíamos improvisações e jogos em que um era o cliente e o outro o trabalhador. Nisto, criava conflitos, para ver o que faziam. Isto permitiu-me conhecê-los muito bem, o seu imaginário, o que os faz rir, chorar, falar. Como eram as suas vidas? Cada um tinha as suas coisas e ao longo destes dois anos fui escrevendo um guião com uma história baseada no que eles me diziam e respondiam. Nunca lhes mostrei esse guião antes das rodagens. Estas aconteceram de forma cronológica, mas apenas semana sim, semana não. Eles tinham de voltar para o seu emprego de duas em duas semanas. Assim, e nas filmagens, tudo foi uma surpresa para eles. Não sabiam com quem iam atuar, que preparação teriam de fazer. Incorporo assim elementos do documentário em que não existem falas escritas, apenas a designação de um problema que lhes aparece pela frente. Os diálogos, as reacções são efectivamente as deles às situações que crio”.
Com mais de 70 horas de material reunido e 9 meses de trabalho na montagem, a realizadora foi assim esperando os “acidentes” e os momentos singulares acontecerem nessa introdução da ficção no documentário, juntando depois tudo em pequenos segmentos divididos por dias da semana – que estavam planificados desde o início da produção. “Cada dia era apenas um trabalho para eles numa casa. Cada dia era um microcosmos completamente diferente. Existiam conflitos que se encerravam nesse dia, mas outros que não. Isso permitia-nos ter dois níveis dramáticos distintos, coisa que gostava. “

Depois de mencionar o português Pedro Costa como influência pela realizadora devido à sua fascinante incorporação do real numa estrutura fictícia, Ballús definiu o que verdadeiramente a move na 7ª arte: “Há um tipo de cinema em que gostamos muito de controlar tudo, o que te torna onipotente. Já este tipo de filmes são uma cura de humildade. Este filme não é o que eu quero que seja, mas o que acontece. O meu trabalho era encontrar o talento do Mohamed e do Valero, das histórias que me contaram e fazer disso o melhor possível. Nunca imaginei que o filme ia terminar assim, como ficou. Aliás, não consegues imaginar antes. Estás aqui como um mediador. Gosto disto, porque nesta profissão normalmente o que aparece é o teu discurso. Sinto-me privilegiada por poder filmar o que quero filmar, existindo assim uma situação de poder. Neste formato partilho esse poder com eles”.
Repleto de questões políticas e sociais, pois fala-se de trabalho, poder e emigração entre outros temas, Ballus acredita que seria impossível “The Odd-Job Men” não ter essa dimensão: “Falamos de relações humanas, logo de poder. Mesmo que muitas vezes não pareçam, porque foram normalizadas, existe uma diferença de poder. Para mim é algo básico questionar isso. Quando estava a filmar o filme, em Espanha, aconteceram atos de violência muito graves nas ruas, como assassinatos de magrebinos, com gritos frequentes de “Mouro de Merda”. As pessoas estão a sofrer nas ruas e estamos num momento muito grave de violência física contra os imigrantes. Há no país um tema real de intolerância. Veja-se agora, durante os Jogos Olímpicos, em que houve um tratamento distinto entre os atletas que representaram o país de origem estrangeira e os outros de origem espanhola. Para mim, a diversidade é a maior riqueza que temos. Tudo isto parece-me absurdo”.
Outra questão focada no filme é a masculinidade, pois um dos dois “faz tudo” deste filme é frequentemente galvanizado pelo seu físico, enquanto o outro, mas velho, não consegue perder a massa gorda, entrando numa espiral de dietas sem grandes resultados. “Preciso empatizar com as minhas personagens para as entender e construí-las melhor. No caso do Valero procurei identificar-me com ele através das suas inseguranças. Por um lado eles são ambos o típico macho espanhol, mas por outro mostram muitas fragilidades. Gosto de abordar estas novas questões de masculinidade que estão agora em cima da mesa. Muita da toxicidade masculina vem totalmente dessas inseguranças.”

