Ao sentar diante do computador para responder às perguntas do C7nema sobre “Voluntário **1864 – quem são os anônimos da vacina?”, documentário que lança neste domingo nas telas do seu país, o Brasil, via GloboNews e Globoplay, a premiada cineasta Sandra Kogut é assombrada pela trágica notícia do incêndio da Cinemateca Brasileira.
O fogo que pôs o Brasil de luto, esta quinta-feira, é um cruel indício do desmonta das engrenagens culturais de uma pátria em desgoverno, que resiste graças a esforços individuais. Parte desses esforços fazem parte do novo filme da realizadora de “Mutum”, um dos destaques da Quinzena dos Realizadores de Cannes, em 2017, e de “Campo Grande”, exibido no TIFF – Toronto International Film Festival, em 2015.
Nele, Sandra acompanha a vida de dez personagens da vida real, desde o momento em que preenchem o formulário para participarem dos estudos acerca da vacinação contra a covid-19, a expectativa se seriam aceites ou não, o momento da aplicação da vacina, as suas rotinas nos meses seguintes e, claro, o momento mais esperado: quando são informados se lhes foi aplicado um placebo ou o medicamento.
Em formato de diário pessoal, produzido completamente de forma remota pelas próprias personagens, o documentário mostra como a iniciativa de participar destes estudos clínicos refletiu no relacionamento com amigos e familiares. O filme mostra ainda que medos aquelas pessoas documentadas tinham ao acompanhar todas as notícias dos fracassos ou sucessos clínicos dos laboratórios e como as suas vidas seguiam com tudo o que estava a acontecer.
Na entrevista a seguir, Sandra – que está no páreo do prémio Platino com “Três Verões” – fala ao C7 sobre seus procedimentos, sobre fake news e sobre resiliências.
De que maneira, numa estética de fake news que nos ronda, envolvendo a própria vacinação, com a falácia espalhada pelos bolsominions de que “o vacinado vira jacaré”, o cinema documental pode funcionar como um antídoto contra as miopias discursivas que nos cercam? De que maneira o seu “‘Voluntário **1864” acaba funcionando como um filme também sobre a guerra discursiva e retórica que nos cerca?
O cinema documental é uma maneira de ver o mundo, uma grande pergunta lançada aos quatro ventos. Ele é feito de experiência, de descoberta, de curiosidade. É feito do não saber e do querer ser surpreendido. Feito da vontade de olhar o outro, o desconhecido. Ele é um olhar de alguém, sempre um olhar somente, e a sua verdade nunca é absoluta. É só a verdade interna daquele filme, de cada filme. É por isso, aliás, que assinamos os filmes, não por vaidade, mas por humildade. Ao assinar um filme estamos dizendo: eu, fulano, naquele momento, sobre isso, vi assim. Pronto. É a verdade de um olhar num certo momento. As fake news são o oposto disso. É o oposto da surpresa, da curiosidade. É a simples visão de tudo como arma de propaganda, a qualquer custo. É o fim de qualquer conversa. É o fim do pensamento. Espero que o meu filme seja um antidoto contra isso, como tantos outros também são. No caso deste filme, como estamos o tempo todo com pessoas, dentro da casa delas, da vida delas, o humano acaba vencendo qualquer discurso desses.
O seu cinema – tanto o ficcional quanto o documental – é um estudo de personagens, sempre, mas um estudo que dialoga com o peso do ambiente sobre o desenho afetivo dos seus atores e das suas atrizes sociais. É cinema de fenótipo. Assim sendo, qual é o fenótipo de teus dez personagens, de onde eles vieram e como abordá-los? Onde, num caso de um .doc que lida com a ciência médica, temos personagem e, não, cobaia?
É verdade que o que me move são as pessoas. Eu sempre acreditei que o rosto é a melhor paisagem. Ainda mais quando é desconhecido. Não importa se ficção ou documental, a gente precisa olhar pra tela e enxergar ali pessoas de verdade, e não tipos. Eu me interesso muito em tentar entender como a grande História, o Poder, as decisões de um governo se traduzem na vida do cidadão comum. Na prática, seria: como tudo aquilo que é decidido nas esferas de poder ecoa na vida da gente? Na vida do seu vizinho, do seu colega? Esse filme é isso. Enquanto o governo negacionista lidava da pior maneira possível com a pandemia, ali estava um grupo de cidadãos comuns, anónimos, completamente diferentes entre si, que queriam fazer alguma coisa, colocar uma pedrinha nessa empreitada gigante das vacinas, quem sabe até ajudar a salvar vidas. Ninguém ali é cobaia. São voluntários. A diferença entre as palavras já diz muito.

Que limite o documentário, em geral, traça em relação ao jornalismo, sobretudo quando vinculado (e veiculado vi)a uma grife como a Globo News? Qual é a estética da notícia e qual é a estética do .doc?
São mundos muito diferentes. O documentário tem outro tempo, outra abordagem. Para mim, é uma experiência, uma maneira de me relacionar, de olhar, e descobrir, de ser surpreendido. O jornalismo usa outros códigos, outro tempo. Mas esse filme tem uma história interessante. Quando tive a ideia, precisava começar imediatamente. Não dava tempo de tentar levantar esse financiamento. Ainda mais do jeito que as coisas estão no Brasil. Trabalhamos meses sem dinheiro, apostando, tentando achar uma maneira de viabilizar. Com a consciência de que, se parássemos, o filme não existiria. Quanto mais o tempo passava, mais o filme se impunha. Seria muito triste desistir. Eu já estava sendo obrigada a desistir quando a GloboNews e o Globoplay entraram. Como eu já sou comentarista da GloboNews, há alguns anos, é uma relação de parceria e confiança que já vem sendo construída há tempos. Foi enriquecedor para todos. De uma certa maneira, esse filme é um pouco como se a TV parasse para olhar para o seu público, é o avesso. A gente não vê as notícias diretamente, mas, sim, através dos olhos de quem as assiste.
No momento em que os documentários ganham cada vez mais vitrine nos streamings, assim como na TVs, qual é o peso (estético e económico) de uma parceira como a Globo News, para o formato?
A GloboNews tem um fundo de financiamento de documentários há anos, que já viabilizou muitos filmes bons. No caso desse projeto, tínhamos urgência. Eu me interesso muito por projetos de longo prazo que lidam com o imediato, e isso é inviável com o tempo dos editais. Acho importante que exista outras maneiras de viabilizar os documentários, que seja possível olhar para algo ainda no calor da hora, mas com a abertura e a liberdade de um documentário.
Como (e quando) é a que própria pandemia pode ser percebida como personagem na narrativa do seu “Voluntário **1864”?
A pandemia está na origem de tudo. Quando começou a quarentena, lembrei-me muito de um trabalho que fiz há 30 anos, as VIDEOCABINES, que deram origem ao “PARABOLIC PEOPLE”. Eu instalava cabines nas ruas e convidava as pessoas a entrarem e a viver um momento Íntimo com o equipamento, onde elas poderiam decidir como se enquadrar, do que falar. Era uma vontade de inverter a relação de poder. Na época, a tecnologia era uma via de mão única. Quando comecei a ver as pessoas nas suas janelas, cantando, aplaudindo, batendo panela, isso me lembrou demais as cabines, que eram um mini palco para falar com o mundo. Acho que hoje as cabines são o celular. A ideia desse filme veio daí. Quando tive vontade de conhecer os voluntários isso tudo já estava pronto na minha cabeça. Como pegar emprestado os olhares de cada um e criar com isso uma rede entre nós? Como contar essa história através de muitas vozes?
Que planos de ficção temos pela frente, sobretudo agora com o seu “3 Verões” na disputa dos Platinos, o Oscar Latino?
O “Três Verões” está sendo lançado em Espanha, segue sua carreira internacional, e continua a trazer muitas alegrias. Eu estou trabalhando num novo filme que tem um desdobramento dele. Quando lançamos, muita gente disse: “quero mais verões, invernos! Quero mais!”. Percebi que eu também. Quero seguir olhando para o mundo através destas personagens, que são maravilhosas.





