Wilson Rabelo: Professor em “Bacurau”, Arcanjo em “Dom”

(Fotos: Divulgação)

Desde a sua estreia, no início de junho, na Amazon Prime, nas mais variadas línguas, “Dom”, uma série de Breno Silveira sobre os feitos do ladrão Pedro Machado Lomba Neto (1981-2005), o “Bandido Gato”, chamado Pedro Dom, virou o assunto mais comentado na sua pátria sobre a representação do crime na arte, consagrando-se como um acontecimento da streaminguesfera

Uma segunda temporada acaba de ser encomendada, abordando situações pouco conhecidas da vida de Dom, interpretado por Gabriel Leone, e pelo seu pai, o policial civil aposentado Luiz Victor D. Lomba, encarnado por Flávio Tolezani.

As atuações de ambos, em estado de graça, tornaram-se um íman de elogios. Mas há um ator que vem a destacar-se tanto quanto os protagonistas nessa superprodução da Conspiração Filmes: Wilson Rabelo. É ele quem vive o agente Arcanjo, figura enigmática que está para “Dom” como o “Cigarette Smoking Man” esteve para “The X Files”: ninguém sabe exatamente quem ele é e o que representa.

Nos anos 1970, é Arcanjo quem convence Victor, então um mergulhador, a se infiltrar num morro do Rio apra ganhar a confiança do traficante local (Fábio Lago), testemunhando como o narcotráfico espalhou os seus tentáculos. Arcanjo virou um dos papéis mais populares do invejável currículo de Rabelo, que chamou atenção das telas da Europa e dos EUA como o professor Plínio de “Bacurau”, dizendo “estamos sob o efeito de fortíssimos psicotrópicos”.

Wilson Rabelo

Mineiro de Belo Horizonte, Rabelo, hoje com 64 anos começou a carreira como sonoplasta e iluminador nos palcos de Minas Gerais. Lá, apaixonou-se pelo teatro e se envolveu intensamente no mundo da interpretação. Decidiu partir para São Paulo, onde iniciou a sua vida como ator. Passaram-se 44 anos desde então e seu nome correu por muitos musicais, novelas, filmes e séries, como “Jogo da Corrupção”, a próxima temporada da série Original Amazon, “El Presidente”, na qual ele interpreta o padre Pascual. Ele tem pela frente projetos esperados como as longas-metragens “Paterno”, de Marcelo Lordello (de “Eles Voltam”), e “O Pai da Rita”, de Joel Zito Araújo” (de “Filhas do Vento”).

Na entrevista a seguir, Rabelo fala ao C7nema como é construir uma trajetória artística que analise as contradições brasileiras.

Quem é o Arcanjo quando avaliamos a importância dessa figura para a história da segurança pública no Brasil?

Há momentos em que o homem Arcanjo aparece mais que a instituição. Isso é uma dualidade que tentei construir na performance da personagem, porque, inclusive, com relação ao narcotráfico, a gente vê que o Arcanjo tem algumas posições muito pessoais. Nessa empreitada dele, já percebemos que as instituições nunca se prepararam para lidar com todos os aspectos desse universo da droga. Tem o aspecto da criminalidade – do tráfico, especificamente -, mas tem a extensão do efeito da droga nas famílias e nos indivíduos. E isso, no caso do Brasil, acaba atingindo um grupo étnico que está socialmente mais fragilizado culturalmente, vivendo uma opressão racial, descriminalizado. O Estado, como um todo, nunca se preparou para lidar com essas pessoas, que acabam sendo vítimas do tráfico, no ponto de visto social, no ponto de vista económico. Quando ele identifica a corrupção não só no Exército, como na Polícia Militar, vemos que fica um pouco sozinho. A relação que o Arcanjo tem com o Victor é muito romântica inicialmente. Os dois querem iniciar uma luta contra uma estrutura que só estava iniciando e que se desenvolveu muito mais que a polícia e o exército. Não digo que ele manipula o Victor, mas envolve o rapaz em sua causa numa idade que o futuro pai de Dom estava iniciando sua vida, saindo da adolescência, estava em dúvida do que seria da vida. Você vê, com o desenvolver da história, momentos em que o Arcanjo tem uma atitude quase paternal, de proteção, de preocupação. Ele tem consciência de que, de certa maneira, envolveu o menino numa situação que, na verdade, é profissional e militar.

Como avalia o olhar da série DOM sobre a memória da segurança pública no Rio de Janeiro?

Ela desmistifica a polícia e o exército, principalmente. Nós acabamos constatando que o tráfico de drogas, através da FAB e do exército brasileiro, não é recente. Ele começou no exército, a instituição que deveria estar contornando as fronteiras. A gente vê, quando a série mostra o início dos movimentos de droga na favela se organizando, a polícia militar traficar armas. É uma coisa que já faz parte do início desse movimento criminoso e permanece. A série mostra um pouco o estado do nosso Estado.

É importante os grandes meios de comunicação falarem sobre essas questões, porque falamos muito do viciado, do pequeno traficante, mas acho que deveríamos desvendar os grandes barões da droga no Brasil. São eles os que mais se beneficiam e são os menos punidos. Na verdade, a hipocrisia faz com que os consumidores e os pequenos atravessadores da droga sejam penalizados. Não temos um combate claro e democrático à droga. E isso atinge principalmente os negros, a grande massa brasileira. O Brasil é um país maioritariamente não branco, afrodescendente e indígena. A gente só vê essa grande parcela da população quando ela está vitimizada. Por isso, acho importante o Arcanjo ser negro.

Dom

Qual foi a relevância do professor Plínio e a importância do Bacurau para a sua trajetória nas telas?
O Professor Plínio trouxe para a minha história e para minha vida um olhar mais democrático do saber, da cultura, do aprendiz, da humildade, da simplicidade. Percebemos que o Professor participa intimamente de todos os momentos da sociedade e daquela comunidade. Faz isso até quando eles vão fazer uma seleção de alimentos para serem doados para uma comunidade que vive visivelmente na precariedade da fome. Ele participa das discussões principais da cidade. Não é um líder comunitário, mas está levando o seu saber a todos em todos os momentos. Ele está presente na hora de combater os invasores estrangeiros, embora não use uma arma. A gente vemos na hora que ele está a corrigir as provas no café da manhã, ao lado do Pacote, da Tereza e da Madalena, que ele está o tempo todo trabalhando com as canetas. A forma dele trabalhar nessa guerra é com a caneta. Na hora em que o Lunga está a chegat à cidade, para poder organizar mais militarmente a resposta aos invasores, ele também está fazendo parte. Vemos que ele fez parte da educação do Lunga e exalta a sua sensibilidade literária. É uma personagem que está a participar integralmente da vida das pessoas… como a educação deveria ser.

Como você avalia o seu método de atuar e de que maneira esse método traduz as suas reflexões sociais sobre o Brasil?

Há muito tempo, gosto de contar histórias dos homens que residem dentro das pessoas simples. Gosto de falar sobre o homem nas instituições, o homem que está dentro de um marginal, o homem dentro de um médico, de um policia, de um mendigo, de um escravo. A essência é uma potência a que chamo de homem e que está dentro das instituições. São as circunstâncias que podem nos desviar da nossa meta humana.

Acho importante o Professor Plínio, por exemplo, trabalhar com a perspectiva das crianças de entender o mundo através de uma conversa simples, numa conversasobre um avião. Ele fala sobre velocidade, fala um pouco sobre a física e lida com os equipamentos electrónicos, inserindo o dia a dia da escola juntamente com outras maneiras de se relacionar com a sociedade e o seu tempo. A gente vemos que o jeito de contar as personagens pode pôr em evidência a vida das pessoas, o que é possível das pessoas realizarem.

Gosto muito de criar, não de viver sentimentos, mas de criar sensações. Fiz muitas novelas das 20 horas, com o Dennis Carvalho. Trabalhei muito com o Pedro Vasconcelos. Tive o privilégio de trabalhar com Jorge Fernando e com o Roberto Talma. Todos eles são grandes diretores. Fiz muitos pilotos para televisão. Nos últimos anos fiz muito cinema, curtas-metragens principalmente. Um filme muito legal que fiz foi o do Foguinho (apelido do cineasta Rudi Lagemann), “Anjos do Sol”. Também participei de um filme do Bruno Barreto: “O Romance da Empregada”. Tenho um filme rodado que está para ser lançado: “O Pai da Rita”, do Joel Zito Araújo. Em Recife, trabalhei num filme de Marcelo Lordelo, chamado “Paterno”, que ainda não estreou, capitaneado por Marco Ricca, com o Thomas Aquino no elenco. Vou fazer com o Pedro, “Fim de Tarde no Paraíso Selvagem”. E participei da série “DOM”, que vai gravar agora a segunda temporada. Acabei também de participar de uma série da Amazon chamada “El Presidente”, dirigida por Armando Bó. Espero que possa ainda aproveitar essa ressonância de “Bacurau” nesses filmes recentes que estou a fazer. Ponho muita fé no “Pai da Rita”, pela temática, com o seu elenco iminentemente negro, boa direção, boa produção e uma história sobre a paternidade, um tema que é muito caro pela questão do desmembramento da família nuclear afrodescendente no Brasil. Hoje estamos a construir novos modelos de família, comunidade e acolhimento. O filme vai ser importante. Sou mesmo mineiro, estou no Rio de Janeiro há quase 40 anos e tenho muito amor pelo que faço, acima e apesar de tudo.

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