Nardjes A.: Karim Aïnouz em estado de alegria

(Fotos: Divulgação)

Karim Aïnouz regressou à Berlinale com “Nardjes A.”

Dez meses depois da consagração de “A vida invisível” em Cannes, com o prémio Un Certain Regard, o realizador brasileiro Karim Aïnouz volta à Berlinale, onde tem sempre as portas abertas, para falar das suas raízes familiares – a Argélia – a partir do retrato de um dia na vida de uma mulher que apostou na militância como homilia na fé pela transformação política do presente. O seu novo documentário “Nardjes A.”, batizado com o nome da sua personagem,,  entrou em erupção na programação do 70.º Festival de Berlim na defesa da sabedoria feminina e da retidão dos jovens. Ao cruzar o seu olhar com a jovem e inflamada ativista, no meio à Revolução dos Sorrisos, em solo argelino, em 2019, o realizador de “Madame Satã” (2002) aplica um dos seus filtros autorais: a atenção ao transbordamento de quem é visto como desviante. Nardjes é uma ferida aberta na moral de uma nação inquieta. Uma ferida de onde brotam as flores de uma juventude que não se deixa calar.

Ela é uma mulher sábia. Só pelos cabelos enormes que ela tinha… hoje cortados… você vê um contraste com aquele mundo conservador, de onde o meu pai vem. Depois que eu saí de ‘A vida invisível’, um filme bonito, mas centro no sufocamento de um ambiente tóxico, eu precisava falar de alegria. E foi aí que essa mulher, a Nardjes, com um projeto utópico forte, apareceu para mim. E ela é uma espécie de prima da minha personagem em ‘O Céu de Suely’: ambas buscam os seus sonhos. Mas a Nardjes é uma Suely com raiva“, disse Karim ao C7nema. “Quando eu fiz o filme, em 2019, a Argélia estava a passarpor uma onda de união, coisa bem diferente do que se passa com o Brasil, neste nosso momento político“.


Karim Aïnouz e Nardjes Aili

Apresentado a Nardjes por amigos, enquanto preparava um filme sobre as raízes do seu pai, o realizador de “Praia do Futuro” (2014) apostou num smartphone para documentá-la. “Chegamos lá no dia 1 de fevereiro do ano passado e, quando tiramos a câmara do carro, fomos recebidos de maneira violenta. Foi quando decidimos filmar Nardjes com um smartphone, usando o privilégio da tecnologia dos novos tempos”, disse o cineasta, que contou com o capricho de ourives na fotografia do colombiano Juan Sarmiento G. “Usar como instrumento de registo um instrumento onde você armazena conversas, agendas, fotos… tira a hierarquia do cinema em relação a outras funções e liberta você para uma interação mais livre. Existe uma profusão de filmes sobre manifestações. Eu preferi falar de 24 horas na vida de uma pessoa. Isso me lembrou de uma instalação que fiz, há alguns anos, sobre o carnaval de Olinda, na qual eu, na Quarta-feira de Cinzas, no fim da folia, encontrei um velhinho dançando e me encantei por aquela figura. A manifestação na Argélia parecia carnaval“.

Um clima de revisão da História marca o gesto de capturar aquela realidade. “A juventude de que Nardjes faz parte tem algo parecido com a juventude de Cuba, quando os avós e pais dos jovens que hoje protestam lutavam pela autonomia do seu país“, diz Karim, que hoje prepara uma adaptação do romance O Sol na Cabeça, de Geovani Martin. “Quando eu ainda era um adolescente, lembro-me de ter perguntado para o meu pai porque eles, argelinos, queriam ficar independentes da França, se tudo seria mais difícil. Lembro dele me corrigir, dizendo que se não tivesse reação, ele e os seus contemporâneos não teriam nem direito a frequentar a escola“.

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