Chama-se bressanismo ao misto de culto estético e profissão de fé dedicado à obra de um realizador carioca que, de 1966 até hoje, construiu uma das filmografias mais prestigiadas do seu país no domínio do chamado Cinema de Invenção — uma vertente narrativa em que o deslumbramento do público nasce da poesia da experimentação.
Nessa lógica, Júlio Eduardo Bressane de Azevedo é poeta. O seu Cinema faz lirismo com o Tempo e o Espaço, o que torna a sua mais recente longa-metragem, Relâmpagos de Críticas Murmúrios de Metafísicas, uma verdadeira epistemologia da criação cinéfila.
Iguaria experimental da programação da 49.ª Mostra de São Paulo, onde estreia este sábado (em sessão no Espaço Petrobras), esta produção do realizador de O Mandarim (1995) foi classificada como documentário na sua passagem pelo BAFICI — o Festival de Buenos Aires — por flutuar nas fronteiras da arquivologia.

Elaborada a quatro mãos com o montador Rodrigo Lima, que também assina a realização como coautor, a narrativa constrói um mosaico de 48 filmes brasileiros realizados entre 1898 e 2022. Cada fotograma revisitado expõe uma memória e uma verdade que, por vezes, rompe a ligação entre o excerto mostrado e a obra a que pertence. É um gesto semiótico.
A expressão cinematográfica bressanista é semiológica. Essa percepção consolidou-se na homenagem que o veterano realizador recebeu em 2023, no Festival de Roterdão, na Holanda, com a projeção de uma autoinvestigação de fôlego monumental — uma reconstrução de cenas de arquivo com sete horas e doze minutos, concebida por ele e por Rodrigo, intitulada A Longa Viagem do Ônibus Amarelo. Trata-se de uma reflexão sobre o modo de desordenar os signos que a linguagem burguesa impõe ao Cinema.
Bressane retomou esse impulso em Leme do Destino, ficção lançada há dois anos. Na trama, duas amigas de longa data (Simone Spoladore e Josie Antello) vivem uma história de amor. Ambas escrevem — são escritoras que escrevem para si e não para publicar. Escrevem como forma de viver.
A conversa entre elas, os desejos, a existência arriscada e os seus fantasmas, o privilégio da ferida e da danação, atravessam a palavra e transformam-se em confissão. O filme segue essa corda, esse coração errante, essa linha de fogo que separa os afectos.
“A memória é um depósito de profecias”, disse o cineasta ao C7, numa passagem pelo Festival de Locarno, quando lançou o seminal Sedução da Carne (2018), com Mariana Lima. “A ideia de ‘político’ para definir o que faço é temerária, pois é um cliché que não dá conta de que tudo, na realidade, é político. A questão urgente que se impõe numa discussão como essa é outra: o problema da educação é a nossa maior carência. E, diante dele, estamos a gatinhar em direcção a um dos destinos naturais do Homem — o de seguir na recta da mediocridade.”
Prestigiado em passagens por Cannes, Locarno e Veneza, Bressane reinventou a sua forma de narrar inúmeras vezes, com marcos como O Anjo Nasceu (1969) e Filme de Amor (2003) — obras que fazem muitos espectadores mais acomodados abandonar a sala de exibição, impacientes perante a apoteose filosófica que caracteriza o seu fluxo de imagens. Um fluxo que o consagra como um verdadeiro titã.
“Para mim, três pessoas são uma multidão”, afirma Bressane. Se tiver três espectadores nas suas sessões na Mostra de São Paulo — que termina no próximo dia 30 —, estará feliz.

