“Será um objeto completamente seco, despido do lado ficcional, mas ao mesmo tempo devedor do estilo imposto por um “O Falso Culpado” (1956), de Hitchcock. Contudo, e frisando, muito mais seco.”
Foi assim que em 2017, numa entrevista ao C7nema, o realizador francês Arnaud Desplechin descrevia, em primeira mão, o que viria a ser “Roubaix, Misericórdia“, projeto no qual embarca no universo dos filmes policiais baseados em crimes reais. O cenário é a cidade de Roubaix, onde o cineasta nasceu, e Roschdy Zem, Léa Seydoux e Sara Forestier são os protagonistas de um caso criminal monstruoso, inspirado num evento real.
Foi em janeiro deste ano, em Paris, que nos encontramos com Desplechin e falamos sobre este “Roubaix, Misericórdia“, que estreia agora em Portugal.
Porque decidiu fazer um policial na cidade onde nasceu?
Não começou com a ideia de ser um filme policial, embora soubesse que iria ter policias e iria ser visto como tal. O que queria realmente era abraçar aquele que a meu ver é o género mais importante em França atualmente: o do realismo social. Quis basear o meu filme totalmente nos factos e esquecer as novelas policiais. Quis mostrar um caso que aconteceu na minha cidade, e mostrar essa cidade de forma verdadeira.
No início até pensei que poderia ser um filme como os de Frederick Wiseman, onde pegamos numa instituição e numa área sob a responsabilidade de uma esquadra e mostramos a vida das pessoas da cidade. Mas claro, não consegui esconder o facto de ser um grande fã de Sidney Lumet nos anos 60. Assim, algures entre a pré-produção e as filmagens cheguei à conclusão que o que estava a preparar era um filme “noir” e não um drama social realista. Foi o meu gosto de juventude que triunfou.
Mas o que significa a sua cidade para si e porque é tão importante regressar lá?
Porque é muito humilde. Lembro-me quando estava a tentar encontrar a minha voz no cinema, coisas que escrevia para mim e eram terríveis. Eu lia as novelas do Philip Roth e a ação delas passava-se em Newark. Quando visitas Newark, não há nada para ver. A humildade dele dizer que não pertence a Manhattan, como a minha em dizer que não pertenço a Paris, Lyon ou Marselha. Pertenço a uma cidade humilde e foi nela que filmei o meu primeiro filme, “La vie des morts”. Quis ter orgulho onde muitos têm vergonha, mostrar esta cidade e os seus problemas numa bandeira. A verdade é que volto sempre a esta cidade que odiava quando era miúdo, e da qual estava super feliz de ter escapado. E claro, é sempre uma boa razão regressar para visitar os meus pais. [risos]
Falemos um pouco das personagens interpretadas pela Sarah Forestier e Léa Seydoux, as suas ambiguidades. Elas são igualmente vítimas…
Sim, quando as conhecemos são vítimas e somos instigados a amá-las. Depois disso, tornam-se suspeitas, e pensas: “Merda! Eu amava-a e agora ela é suspeita”. Depois tomas consciência muito rapidamente que são culpadas e que o que fizeram não é humano. Mas já é tarde. Tu ama-as. Mas que tipo de amor será esse se o reprimes? Como encaixar esse amor nas personagens quando elas agem de forma tão transgressiva?
Há dois elementos a ter em conta para a escolha delas para os papéis. Primeiro, vi o “M” (2017), realizado pela Sara Forestier, onde ela também atuava e esteve brilhante. Escrevi-lhe e enviei-lhe o guião. Achei que era perfeita para o papel. Ela respondeu-me de uma forma super inteligente. Enviou-me uma imagem da Maria Falconetti como Joana D’Arc. Foi perfeito, ficou com o papel.
Mas depois tínhamos o papel da Claude, que era muito complexo. Mais ainda que o da Marie.
A Marie é a amante, esteve sempre apaixonada. A Claude é a amada. Foi sempre a amada. Esta personagem fascinou-me e falei com a Léa vezes sem conta sobre como a Claude teria de resistir e persistir perante a polícia. Um resistir e desmoronar. Senti que ela era como a Tess da novela do Thomas Hardy.
No final, pensei: tenho a Joana D’Arc a namorar com a Tess. Tenho uma história de amor, posso fazer um filme.
E o polícia, até por questões de posição geográfica, um pouco Maigret e dos detetives de Melville! Como o descreveria?
Vergonha minha, que lendo tantos autores americanos, nunca li nenhum livro do Simenon. Mas vi muitas adaptações dele na TV que tenho a certeza que me influenciaram. Até o Jean Renoir o adaptou. Mas obviamente que a influência principal é Melville, não porque sou francês, mas porque sou um cinéfilo.
E também podemos falar de influências de Hitchcock…
Sim, num jeito muito particular. Sabe, tenho um ritual cada vez que faço um filme. Escolho uma obra e faço um visionamento para todos os técnicos e atores. A ideia é dizer-lhes: “é este o alvo, é isto que quero”. O que lhes mostrei foi “O Falso Culpado (1956)”. E mostrei porque o Hitchcock foi o rei dos enredos surpreendentes, da fantasia e imaginação, mas neste filme específico dedicou-se apenas a uma coisa: relatar factos, a realidade. Fez um filme baseado apenas em factos. Também pela performance do Henry Fonda mostrei a todos esse filme.
Acho que neste filme, Hitchcock é realmente humilde e gostei mais desta obra que qualquer das outras super inteligentes que ele fez.
Acha que hoje em dia é mais fácil – para alguém conectado ao cinema de autor – fazer um filme de género como este?
Sim, é mais fácil. A audiência tem mais apetite por estes filmes de género que há uns anos. Na verdade, acho que este filme é uma resposta ao reinado do realismo. Eu não acredito no realismo, acredito na verdade, que é algo completamente diferente.
Tudo é baseado na realidade, mas a estética do meu filme é muito mais ligada a um storytelling tradicional que ao realismo. Tentando realçar a diferença entre realismo e verdade, estas duas mulheres são monstros. O que elas fizeram foi monstruoso, mas se tocarmos nas suas almas no filme, percebemos que são seres humanos.
É importante para mim atingir um nível mais metafísico que sociológico. O Cinema é maior que a vida. Mesmo que este filme tente contar uma história humilde, continuo a querer filmá-la de uma forma maior que a vida.

Voltando ao detetive e ao Roschdy Zem… Sabe, quando vi aquela personagem naquele ator, naquela cidade, imaginei mesmo uma série de TV com ele a resolver inúmeros casos. Como foi que trabalhou com o Zem essa personagem?
Já conhecia o Roschdy de outros projetos, mas antes dele aceitar participar – depois de lhe enviar o guião – disse ao produtor que se ele não quisesse atuar no filme, abandonaria o projeto.
Claro que não disse isto ao ator, pois seria demasiada pressão nos seus ombros. Por isso menti-lhe e disse apenas uma coisa. Em muitos filmes, os cineastas oferecem papéis de policias que são apenas rabugentos. Eu não queria só isso. O Daoud teve uma vida muito dura, é incrivelmente solitário. Ele vê como o mundo funciona, a brutalidade das coisas. Podemos ver essa solidão quando ele visita o sobrinho na prisão, consumido nas entranhas, mas ainda assim sorri. Eu queria filmar o sorriso do Roschdy Zem.
E por falar em séries, como vê hoje em dia o facto de tantos realizadores famosos trabalharem nelas. Vê-se também a entrar nesse universo?
Adoro-as como espectador, mas iria aborrecer-me de morte a realizar uma (risos). Por exemplo, adoro o “Mindhunter” (Caçador de Mentes), mas simultaneamente lamento o facto do David Fincher não fazer tantos filmes como os que eu gostaria de ver dele.
Sendo sincero, não vejo uma grande separação entre séries e filmes. Se me perguntar uma das cinco melhores obras americanas nos últimos 20 anos, digo de caras o “The Wire”. É óbvio, tantos novos atores, rostos, histórias, etc. É uma obra-prima. Mas é bom como série ou filme? Não sei. Não sou juiz, apenas espectador. Aceito que isto chegue até mim através do grande ou pequeno ecrã.
Fazer uma série não me parece ser algo que queira, pois o que gosto no meu trabalho são as lacunas, as coisas sem explicação. Por exemplo, o ódio. O ódio pode ser puro. Adoro o mistério disso e o Roschdy Zem põe a sua personagem nessas lacunas.
Por tal, acho que não seria bom para séries, pois essas lacunas têm de ser preenchidas. Temos de dar todas as respostas e explicações nelas.
Há dois anos, disse a um colega meu que nunca via os seus filmes depois de estarem prontos. Continua a ser assim?
Sim, é um sofrimento (risos). Vou aos visionamentos e fico até na abertura dos créditos, para ver se o volume está no ponto, mas depois saio. Não há nada a fazer e estar lá só faz sentido se eu puder fazer alguma coisa.
Sou muito supersticioso. Quando estou a misturar tenho uma versão em bruto ainda sem correcção de cor. E quando estou a tratar da correcção de cor, faço-o sem som. E quando juntam som e imagem, fujo.

