A produtora Esther García recebeu esta sexta-feira, 19 de setembro, o primeiro dos dois Prémios Donostia que serão atribuídos este ano no Festival de San Sebastián. Entregue no Auditório Kursaal, a distinção reconheceu a sua carreira como “pioneira” na produção cinematográfica e como inspiração para várias gerações de mulheres na indústria.
Nascida em Cedillo de la Torre, Segóvia, em 1956, Esther García integrou a El Deseo em 1986, começando o seu trabalho na proução com Matador, de Pedro Almodóvar. Desde então, produziu todas as suas longas-metragens, incluindo La ley del deseo (1987), Mujeres al borde de un ataque de nervios (1988), Todo sobre mi madre (1999), vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, Hable con ella (2002), Volver (2006), Dolor y gloria (2019) e La habitación de al lado (2024), vencedor do Leão de Ouro em Veneza. Produziu ainda Sirāt (2025), de Oliver Laxe, premiado em Cannes. Para além de Almodóvar, García colaborou com realizadores como Álex de la Iglesia, Isabel Coixet, Guillermo del Toro e Lucrecia Martel. Vencedora de seis prémios Goya e do Prémio Nacional de Cinematografia, a espanhola é reconhecida por dar visibilidade a vozes femininas, tendo participado em documentários como Yo decido. El tren de la libertad (2014) e El silencio de los otros (2018).

“Sinto muito orgulho, muita alegria e também muita responsabilidade. Quando nos atribuem um prémio, mesmo que a vida inteira tenhamos estado numa segunda linha — onde eu sempre me senti confortável —, esse prémio obriga-nos a expor-nos, a comunicar ideias e opiniões que, no meu caso, não são muito conhecidas. Isso faz com que cada palavra e cada gesto sejam observados com uma atenção à qual não estou habituada”, afirmou a produtora na conferência de imprensa que antecedeu a entrega da distinção. “Ser a primeira produtora a receber este prémio dá-me uma satisfação especial. O festival, ao atribuí-lo a uma produtora, abre uma nova linha de reconhecimento para além de realizadores e atores. Como acredito que a produção é uma das funções mais criativas do cinema e do audiovisual, fico muito feliz que este debate seja colocado em cima da mesa.”
A gala, conduzida pelas atrizes Silvia Abril, Toni Acosta e Itziar Ituño, combinou humor, defesa de causas e uma homenagem a Marisa Paredes. Foi Ituño quem sublinhou que, graças a García, “hoje, em Espanha, a maioria das diretoras de produção são mulheres”.
Ao receber o galardão das mãos de Pedro e Agustín Almodóvar, com quem colabora há quase quatro décadas na produtora El Deseo, García agradeceu o reconhecimento: “Obrigada por abrirem o Prémio Donostia à produção, uma disciplina que recebe tão pouca atenção.” Ela recordou ainda as dificuldades do início da carreira “num mundo de homens” e evocou figuras como Pilar Miró e Josefina Molina como referências. “Receber um guião, descobrir uma ideia ou acompanhar um realizador desde uma curta até ao seu primeiro filme é muito estimulante. Produzir é um compromisso longo — pelo menos dois anos intensos com o realizador, o guião e a equipa. Mas também é o início de relações pessoais que, no meu caso, muitas vezes se transformam em amizades”, afirmou na conferência de imprensa.
No seu discurso em palco na gala de abertura Esther apelou ainda à união na defesa de direitos e condenou a guerra na Ucrânia e a violência em Gaza. “Confio no poder da cultura. O cinema é casa de sonhos e um altifalante de causas”, disse.
O Festival de San Sebastián decorre até 27 de setembro. A atriz norte-americana Jennifer Lawrence, vencedora de um Óscar por Silver Linings Playbook (Guia para um Final Feliz, 2012), será a outra distinguida com o Prémio Donostia nesta 73.ª edição.

