É mais fácil entender o projeto “Dune” em toda a ambição sociológica e na parca compreensão do pop de Denis Villeneuve pela leitura de Tariq Ali do que pelo próprio Frank Herbert (1920-1986), o escritor de onde aquele universo vem. Prosador responsável por “Un sultan à Palerme” e “Livre de Saladin“, Ali escreveu recentemente no Le Monde: “Marx escreveu bem que a religião era ‘o ópio do povo’, mas a frase que se seguiu, onde a qualifica como ‘suspiro dos oprimidos’, é, a maioria das vezes, esquecida“. O guião escrito por Jon Spaihts e pelo próprio Villeneuve não esqueceu essa reflexão: no meio do desolamento no qual subsiste, numa estrutura de opressão, o povo de Arrakis, sublima os desarranjos da sua luta de classes à espera por um Messias. Esse cargo é vislumbrado na figura de Paul Atraides, o Luke Skywalker de uma Guerra nas Estrelas que carece de um Darth Vader e não é capaz de tornar as suas motivações bélicas críveis – ou sequer compreensíveis – na frágil conversão que estabelece com a matriz literária.

Realizador sem traços de autor, alçado à atenção com “Incendies” (2010), Villeneuve conversa com o teatro e com a literatura (até a de José Saramago, em “Enemy“) mais preocupado com as premissas do que com as estruturas. O que existe do “Duna” de Herbert na sua abordagem é a lógica geopolítica de um planeta fraturado sob o jugo de uma aristocracia falida do que a rica diversidade antropológica elaborada pelo escritor. Ou seja, a particularidade saí de cena, a originalidade desaparece e reina o genérico. Já era assim na confusa “Parte Um” do que deve ser um díptico, lançado em 2021, e agrava-se na Parte II.

Nada se avança na psique de Atraides, nem de qualquer personagem, com o problema nunca ser bem delineada a sanha maléfica dos vilões. A presença de Dave Bautista como Rabban (o arauto do pecado), no novo filme, só é justificada por um breve acesso de fúria. Numa narrativa em que as cenas de correria, lutas de esgrima e tiroteios na areia repetem-se como um qualquer algoritmo, Villeneuve põe os pés num ambiente que parece um “Lawrence of Arabia” no espaço, incapaz de extrair dele um legítimo senso de espetáculo. Só a banda-sonora de Hans Zimmer carrega algo de espetacular. Mas a incapacidade do ator Timothée Chalamet em convencer no arquétipo de herói confina o que poderia ser um épico de profundezas filosóficas à superficialidade.

Num oceano arenoso de participações estelares, neste seu segundo tomo de “Duna“, só Austin Butler dignifica o que surge no grande ecrã como o psicótico Feyd-Rautha. Mas nem ele salva Villeneuve da sua total falta de harmonia com o conteúdo de que se apropria.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
dune-part-ii-a-particularidade-sai-de-cena-a-originalidade-desaparece-e-reina-o-genericoSó Austin Butler dignifica o que surge no grande ecrã como o psicótico Feyd-Rautha. Mas nem ele salva Villeneuve da sua total falta de harmonia com o conteúdo de que se apropria.