O Mercado de Notícias: As burrices artificiais em destaque

(Fotos: Divulgação)

Recém-saído das filmagens da longa-metragem Muito Prazer, Jorge Furtado, um dos argumentistas mais prolíficos da televisão brasileira, é um mito vivo da excelência criativa do cinema do Rio Grande do Sul e da importância do Festival de Gramado para aquele território da arte brasileira. Num momento da história daquele país (entre 1990 e 1995) em que a produção cinematográfica esteve à beira do desmantelamento, devido a uma medida do antigo presidente Fernando Collor que extinguiu o financiamento ao audiovisual, Furtado conseguiu concretizar um filme em segmentos, Felicidade É…, de 1995. A fita passou pelo Palácio dos Festivais de Gramado naquele ano e saiu dali premiada. A sua obra-prima, Ilha das Flores, vencedora do Prémio Especial do Júri de Curtas da Berlinale em 1990, também teve projeção na maratona sulista. Não por acaso, uma das obras de maior relevo estético do realizador gaúcho neste século, o documentário O Mercado de Notícias (2014), encontra-se em exibição diária e gratuita até ao próximo sábado .

O site integra os eventos da 53.ª edição de Gramado, mobilizando não só as redes sociais como também o grande ecrã da sua cidade. Inspirado na peça clássica do dramaturgo inglês Ben Jonson (1572-1637), intitulada The Staple of News, encenada pela primeira vez em 1626 em Londres, Furtado elabora um estudo sobre as fake news. Baseia-se numa análise do jornalismo brasileiro da década passada. A narrativa estabelece um paralelo entre comunicação social e democracia, incluindo uma breve história da imprensa desde o seu surgimento no século XVII até aos dias de hoje, destacando o seu papel na formação da opinião pública. Sem tomar partido — nem à direita, nem à esquerda, nem sequer junto aos governantes de centro —, o realizador de O Homem Que Copiava (2003) propõe uma reflexão sobre o papel dos média na construção de uma sociedade livre.

Os jornalistas que entrevistei para o documentário eram repórteres que acompanharam a transição do jornalismo impresso, televisivo e radiofónico para a internet“, afirmou Furtado ao C7nema. “Há alguns ali, como o Luís Nassif, o Bob Fernandes, o José Roberto de Toledo, que já tinham começado a atuar na internet, mas eram todos jornalistas provenientes dos media impressos, de jornais e televisão. O filme fala, pois, daquele momento de transformação da imprensa, que, acredito, teve um papel lamentável no caso do impeachment de Dilma Rousseff, bem como em todo o processo da Lava-Jato e do Mensalão. A imprensa desempenhou muito mal a sua função de informar e dizer a verdade. Só mais tarde desempenhou melhor o seu papel, nomeadamente no combate à extrema-direita e, especialmente, durante a pandemia. Se não fosse a imprensa, no auge da covid-19, não saberíamos quantas mortes a estupidez bolsonarista provocou. Vi que o número estimado ronda as 100 mil pessoas que morreram e que não precisavam de ter morrido, graças à inépcia do governo maluco. A imprensa recuperou bem, e acho que talvez tenha percebido, um pouco tardiamente, que precisava de se apegar cada vez mais aos princípios do jornalismo: dizer a verdade. Há uma frase da filósofa Hannah Arendt que o jornalista Mino Carta cita em O Mercado de Notícias: ‘a civilização é impossível sem que alguém esteja disposto a dizer a verdade… porque é a verdade’. Isto precisa de ser lembrado cada vez mais. A chegada da campanha de 2026, perante estas inteligências artificiais… e estas burrices artificiais… pode tornar-se um pesadelo. Temos de estar muito atentos.

O Festival de Gramado prossegue até ao dia 23 de agosto, altura em que será anunciada a premiação.

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