“Faço musicais, mas a comédia é o meu habitat”, diz Fernando Treuba, ao levar “Bajañí” a San Sebastián

Em San Sebastián com Bajañí, o realizador espanhol revela ao C7nema o próximo filme e explica por que prefere chamar "musical" ao seu novo trabalho.

Fernando Trueba já sabe para onde vai depois de Bajañí. O realizador espanhol, vencedor do Óscar por Belle Époque (1992), escreveu uma comédia passada em Madrid em 1968, com elementos da sua própria infância, embora faça questão de afastar qualquer leitura autobiográfica. O título provisório é El Mayo del 68 de la Familia Mendieta — e, avisa, aquele Maio não será propriamente o político.

A novidade surge quando Trueba regressa a San Sebastián com Bajañí, apresentado na Seleção Oficial fora de competição, uma viagem musical de 112 minutos conduzida pela guitarra flamenca de Niño Josele através do jazz e da música brasileira. Depois de Calle 54 (2000) e Dispararon al Pianista (2023), realizado com Javier Mariscal, Trueba volta a defender uma ideia muito particular: a música não deve ser ilustrada pelo cinema; a imagem é que deve aprender a ouvi-la. Ele fez muita gente rir com Two Much (1995). Vai fazê-lo outra vez.

Já sabe qual será o seu próximo filme depois de Bajañí ?

Escrevi uma comédia. A comédia é o meu género, de alguma forma o meu habitat. Escrevi uma comédia que acontece em 1968, em Madrid. Tem muitas coisas da minha infância, mas não é um filme autobiográfico, é uma comédia. Tem um nome, não sei se será o definitivo, mas chama-se El Mayo del 68 de la Familia Mendieta. E não é o Maio político.

Caetano Veloso e Niño Josele

Por que razão resiste a definir Bajañí como um documentário?

Sabe o que acontece? Filmes como Calle 54 (2000) ou Bajañí, eu resisto a chamá-los documentários. Eu chamo-lhes, e coloco isso nos créditos, “um musical”. Não ponho “um filme de Fernando Trueba”. Ponho “um musical”, porque o termo musical acabou por ser atribuído aos filmes que partiam dos musicais da Broadway, entre os quais há filmes magistrais e clássicos. Mas, na realidade, era um género muito teatral, vinha diretamente do teatro.

Como se constrói visualmente um filme no qual a música é a verdadeira protagonista?

Muitas vezes, quando retratam a música, a imagem não ajuda. Tenho a sensação de que preferia ouvir o disco e não ver a imagem. Então, aquilo que tento fazer é precisamente o contrário: que a imagem seja solidária, que faça parte, que nos ajude a ouvir, que nos ajude a escutar. Essa é a aposta neste tipo de filmes. Não retratar a música de fora, mas fundir-se com ela, entrar dentro dela. Durante a rodagem, dizia algumas vezes ao Josele: “Estou a fazer um documentário sobre as tuas mãos”, porque me fascina olhar para as mãos dele quando está a tocar.

O título Bajañí remete diretamente para a cultura cigana. O que procurava ao colocar a guitarra flamenca em contacto com outras tradições?

Começamos pelo título, que é uma palavra cigana, uma palavra caló, romani: bajañí é a guitarra. Mas acho que faço uma operação contrária. É trazer essa guitarra, a guitarra flamenca, e demonstrar a toda a gente que ela pode falar de igual para igual com a música brasileira, com o jazz americano, com uma orquestra sinfónica, com cantores, com big bands ou sozinha. E não se trata de fazer uma fusão, não se trata de fazer uma experiência de laboratório. Não. É orgânico. Josele não deixa de ser ele, o cigano puro-sangue que é, a cem por cento, nem durante um segundo, nem durante um fotograma do filme. E, no entanto, pode estar a fazer Jobim, Beatles, Johnny Hodges, Ben Webster ou Charlie Haden. Isso é o bonito: colocá-la no lugar onde merece estar.

Essa atenção à música começou muito antes da rodagem. O que acompanhou na transformação de Niño Josele como músico?

Fui testemunha disso. Produzi vários discos de Josele e vivi ao lado dele a sua aproximação ao jazz, a descoberta da música de Bill Evans. O primeiro disco que produzi de Niño Josele chama-se Paz, um disco em que Josele toca a música de Bill Evans. Depois começou a tocar com músicos de jazz e eles começaram a tocar com ele, e assim foi ampliando o seu mundo a partir do flamenco, entrando no jazz, na improvisação. E houve depois outro momento muito bonito, quando, também através de mim, começou a entrar na música brasileira e a conhecê-la.

Existe também uma dimensão física muito particular no modo como o filme procura reproduzir a experiência musical. Até que ponto o som condicionou a realização?

Fazer este filme com som Atmos foi muito importante para mim. Poder ouvir uma música em que não existe compressão, em que a música está integral e colocada no espaço. Não utilizámos o Atmos de uma maneira espetacular, artificial. Não. Utilizámo-lo de uma maneira natural, para a musicalidade.

Ainda mantém uma relação física com os discos ou rendeu-se definitivamente ao digital?

Tenho muito poucos vinis. Não foi tanto porque tenha passado para o digital; houve uma altura em que passei para o CD, mas guardei alguns e ofereci quase todos os vinis a um irmão meu. Agora, no próximo mês, sai o disco de Bajañí em streaming, mas também sai num CD duplo e num vinil triplo. É um disco que desenhámos e ficou lindíssimo. É daqueles discos que, mesmo que a música não fosse magistral, já seria um objeto bonito. Mas o melhor do digital é que agora podemos ouvir música em alta definição. Às sextas-feiras, a primeira coisa que faço depois do pequeno-almoço é ver os discos que saíram. Estou sempre à espera de alguma coisa nova.

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