Souleymane Cissé: “O meu maior obstáculo sempre foi a incompreensão no Mali”

(Fotos: Divulgação)

Um documentário sobre a passagem de Martin Scorsese no Mali e uma trama nas franjas da não ficção chamada “Les Témoins” são os projetos que o realizador Souleymane Cissé, nascido no Mali há 83 anos, acalenta rodar nos próximos meses. Um ânimo extra lhe chegou com a conquista de uma láurea honorária do Festival de Cannes, a Carroça de Ouro, dada na abertura da Quinzena de Cineastas desde 2002.

À força de longas-metragens como “Yeelen” (Prêmio do Júri em 1987) e “La Jeune Fille” (“Den Muso“, no original), que a Quinzena vai projetar ao largo da homenagem ao realizador, ele passa a fazer parte de um time seleto de autores galardoados com o troféu cannoise. Antes dele, a Carroça foi dada a Clint Eastwood, Nanni Moretti, Ousmane Sembène, David Cronenberg, Jim Jarmusch, Naomi Kawase, Agnès Varda, Jafar Panahi, Jane Campion, Jia Zhangke, Martin Scorsese, John Carpenter, Frederick Wiseman e Kelly Reichardt.
O cinema já enfrentou momentos muito duros antes, como a II Guerra Mundial, e saiu dela renovado. O que a arte cinematográfica vive agora (depois da pandemia, com o boom dos streamings) pode fazê-la rever os seus códigos. Eu sei o que é passar por momentos difíceis, pois fui preso depois de lançar o meu primeiro filme. Fazer uma equipa, uma trupe de atores e querer filmar comigo depois disso não foi fácil“, disse Cissé o C7nema, em Cannes.

A sua homenagem ocorre nesta quarta-feira, quando a Quinzena inaugurar a sua programação, ao projetar “Le Procès Goldman“, de Cédric Kahn. Antes da exibição desse thriller jurídico, Cissé revisita o seu passado de lutas.

Já falei de racismo nos meus filmes. Levanto a bandeira da justiça no meu cinema. Mas o meu maior obstáculo sempre foi a incompreensão no Mali. As coisas caminham por lá. Os filmes são feitos. Mas nem sempre o que procurei dizer soube ser compreendido“, disse o cineasta. “Fico feliz hoje ao ver uma reação forte das mulheres, em todo o mundo, mostrando a sua força, transformando as coisas. Sempre valorizei a força feminina”.

O Festival de Cannes. 76 decorre até o dia 27 de maio.

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