Prestes a arrancar oficialmente no dia 28 de agosto, com “Beetlejuice Beetlejuice” como cabeça de cartaz, o Festival de Veneza exibe no dia anterior uma das maiores obras-primas do cinema popular italiano, “L’oro di Napoli” (O Ouro de Nápoles), de Vittorio De Sica, numa nova versão restaurada em 4K pela Cinecittà, por iniciativa do Filmauro de Aurelio e Luigi De Laurentiis, a partir do 35mm.
Reconstruindo-se “muitas frames”, eliminando a cintilação em muitos planos, e mexendo na gradação de cores, “recriando“ o contraste e a aparência original da película, o filme de Di Sica – que também teve direito a intervenção no som, em particular na relação sinal-ruído para recriar o equilíbrio adequado entre o ruído de fundo e os diálogos, mas também na banda sonora – vai invadir assim a Sala Darsena no Lido a 27 de agosto, por ocasião do 50.º aniversário da morte de Vittorio De Sica e do 70.º aniversário da estreia do filme.
Partindo de uma coleção de contos homónimos de Giuseppe Marotta, o filme – apresentado em competição em Cannes em 1955 – é dividido em 6 episódios, onde algumas das muitas faces de Nápoles são exploradas através de personagens interpretadas por alguns dos maiores artistas da história do entretenimento italiano, como Totò, Sophia Loren, Silvana Mangano, Paolo Stoppa, Eduardo De Filippo, Tina Pica e o próprio Vittorio De Sica, que dá vida, no segmento “I Giocatori”, a um Conde viciado no jogo e que encontra numa criança um rival.


“De Sica criou-o numa passagem particular da sua carreira, de reflexão sobre a explosão, os sucessos e os mal-entendidos do Neorrealismo. Veio do quarteto de títulos que perturbaram e viriam a perturbar a estética e a ética do cinema mundial – “Sciuscià”, “Ladrões de Bicicletas”, “Milagre em Milão” e “Umberto D.” – e a tentativa de produção “americana” da Stazione Termini”, lê-se nos apontamentos do Festival de Veneza.
E enquanto a diva do cinema italiano, Sophia Loren, dá vida com humor, em “Pizze a Credito”, a uma cozinheira de pizzas que tenta recuperar a sua aliança perdida, Totò tenta se livrar de um inquilino que alberga na sua casa há vários anos em ““Il Guappo”; Silvana Mangano brilha como “Teresa”, uma ex-prostituta envolvida num casamento dececionante; e Eduardo De Filippo dá vida às façanhas do “Il professore” Ersilio Miccio, um “vendedor de sabedoria” que “resolve problemas”.

“O Ouro de Nápoles era transmitido pela televisão em Nova York naquela época, e todos na vizinhança viam sempre e adoravam. […] É um filme que oferece uma gama maravilhosa de estilos cómicos e incorpora algo que realmente aprecio no cinema italiano: a maneira como ele se move facilmente entre a comédia e a tragédia”, disse Martin Scorsese em 1999, no seu documentário “My Voyage to Italy“, sobre “L’oro di Napoli”
O Festival de Veneza encerra a 7 de setembro.

