Produto da HBO (Romena), “Acasă, A Minha Casa” estreou em 2020 no CPH: DOX, chegando este ano (2021) a Portugal como parte integrante do Festival Beast, que decorre em modo online na Filmin até 4 de abril.
Registo observacional criteriosamente montado para mostrar dois mundos em colisão, entre si mas igualmente internamente, nele começamos numa área pantanosa e de arrabaldes, transformado em parque natural, nos arredores de Bucareste, Roménia. Com os animais e vegetação que aí encontramos está também uma família Roma, que vive neste espaço natural que sente bem a pressão da civilização urbana, mas que mantém seu estado selvagem e livre. Com essa transformação da área e com a assumpção por parte das autoridades que Gica Enache, a sua esposa, Niculina, e os seus nove filhos, vivem em condições “degradantes”, começa um processo de arranjar um novo espaço para a família.
A decisão não é levada de bom agrado por Gica, que se auto-intitula maluco e até ameaça imolar-se perante o ultimato que lhe colocam. Mas a decisão está tomada e a família é então levada para uma habitação temporária onde a liberdade que encontravam antigamente não existe.
É extremamente complexa a relação dos Romenos com os Roma e reduzi-la aos tempos atuais é simplesmente ridículo e ineficaz. Perseguidos e ostracizados desde sempre (vejam o cinema de Radu Jude, por exemplo), cidadãos de segunda como se ouve por aqui dizer, a conflitualidade entre dois universos que parecem impossíveis de coexistir é aqui apresentada frequentemente, não só pelas guerras verbais entre eles e os outros habitantes, mas na ação musculada da polícia, que não se coíbe de os agredir em clara situação de abuso de poder.
Por outro lado, temos uma forma de ver a vida entre a anarquia e o mais puro autoritarismo, quando Gica, por exemplo, diz que deu vida aos filhos e que se quiser mata-os, como se fosse um ato natural. Aliás, essa mudança de casa e o início de educação escolar dos jovens representam para ele uma espécie de morte do seu ser, da sua força e poder.
E há também uma amostragem da mudança de pensamento derivada da educação estatal, quando um dos filhos confronta primeiro o pai, por este lhe ter negado educação (só aos 16 anos aprendeu a ler) e de ainda querer dominar as decisões de todos os familiares, e depois quando diz à companheira de 15 anos que ela devia abortar porque sente que nenhum deles está preparado (ele assume que são todos crianças) de educar um filho.
Um belo e duro filme que Radu Ciorniciuc cria, mostrando que o relacionamento entre estes dois mundos é muito mais complexo que uma agenda populista entre a caridade e a segregação.















