O que existe de mais exuberante em “Berlim Alexanderplatz”, de Burhan Qurbani, além da sua cartografia queer dos códigos de lealdade na sociedade contemporânea, é movimentar-se para além dos rótulos que a intolerância sexual insiste em alimentar, sobretudo numa Europa atada aos grilhões do racismo.

Numa releitura do romance homónimo de Alfred Döblin (1878-1957), transformado em série de TV por Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), em 1980, Qurbani atesta não apenas a sua maturidade como realizador, como a permanência daquele livro como um farol. A sua projeção na Berlinale, há cerca de um ano, na caça ao Urso de Ouro, foi um dos momentos mais emocionantes da maratona cinéfila germânica, em especial pela catártica interpretação de Welket Bungué. A partir do desempenho dele, discute-se uma certa noção de imobilidade social no tráfego geográfico. “É difícil livrar-se do Diabo depois que deixamos ele entrar”, comenta-se numa cena do filme de Qurbani, cineasta alemão de origem afegã, revelado com “Shahada” (2010),  num indicativo do clima mefistofélico que cerca o imigrante Francis, papel de Bungué. Avesso a toques invasivos no seu corpo e sua alma, ele negoceia a alma na sua jornada em prol de se afirmar, não como um corpo estranho num país estrangeiro, mas como parte da geografia de uma Europa ainda xenófoba.

Fausto desterritoralizado, negoceia o seu espírito com o crime em nome do desejo da legitimação pelo dinheiro, a ponto de gritar “Tenho nome alemão!” aos seus adversários, num meio ambiente hostil de prostituição, repleto de criminosos e policias intolerantes. Radiografia moral de uma Alemanha de uma brutalidade institucionalizada, o périplo de Franz pelas franjas do delito impõe-se como um espetáculo cinematográfico pela força da sua edição de som.

Na homilia da solidão rezada pelo cineasta, Francis cruza-se com um Mefisto, Reinhold (vivido magneticamente por Albrecht Schuch), cuja função é arrebanhar novos bandidos para os seus chefes. Há entre eles uma tensão sexual homoafetiva que evoca o Fassbinder de “Querelle” (1982), só que numa luxúria engasgada. É que o coração de Franz vai ser assaltado mesmo por mulheres, como Eva (Annabelle Mandeng) e a prostituta de luxo Mieze (Jella Haase). Esta salva-o de um acidente convertido em cicatrizes profundas. Mas algo em Francis não permite que se afaste de Reinhold, mesmo quando este começa a ver Mieze como um empecilho. São querências incompatíveis. São sexos em pólos opostos numa cidade capaz de abraçar todas as desinências verbais do verbo “querer”.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
Jorge Pereira
berlin-alexanderplatz-mapa-de-lealdades-e-desterrosQurbani atesta não apenas a sua maturidade como realizador, como a permanência do livro de de Alfred Döblin como um farol.