Já com uma vasta experiência no cinema e na tv na Áustria, Peter Payer embarcou – 8 anos depois do seu último projeto para o grande ecrã – na adaptação do thriller psicológico “The Polycrates Syndrom”, de Antonio Fian, livro que chegou a estar coagitado em 2014 para os prémios da literatura germânica.
De thriller, este “Glück Gehabt” (Golpe de Sorte) não tem nada, socorrendo-se num desconjuntado humor negro que deve mais a um Peter Berg copião (Eram Todos Bons Rapazes) que a qualquer peça negra dos anos 90 saída das mãos de um Soderberg (Romance Perigo), Tony Scott (True Romance), Danny Boyle (Pequenos Crimes entre amigos), Joel e Ethan Coen (Fargo) ou até mesmo do também austríaco Michael Haneke (Brincadeiras Perigosas). É importante mencionar estes filmes como comparativo para entender o beco sem saída em que o realizador Peter Payer nos enfia, pois tudo por aqui parece uma peça obsoleta e gratuita que nos vai afundando lentamente num mar de letargia, sem nunca se apresentar como a verdadeira sátira que pretende ser.
No filme seguimos Artur, um homem licenciado (uma espécie de Dante de “Clerks”) que resume a sua vida a um trabalho rotineiro numa casa de fotocópias. Como prazer adjacente à sua vida vulgar (adjetivo neutro), ele encontra o desenhar e a sua mulher, com quem aparentemente não tem nenhum conflito e pela qual permanece muito enamorado após 11 anos de união. Porém, num encontro com uma sedutora jovem a sua vida vai mudar. Ele mesmo diz-nos isso diretamente na cara, momentos antes de levar uns sopapos do antigo relacionamento daquela que se vai tornar a sua amante. O pior disto tudo é que o espectador, avisado por Artur, fica logo a saber que a história vai acabar mal e estará certamente abarrotada de reviravoltas mirabolantes. Se juntarmos a isso a explicação inicial sobre a vida e morte de Polícrates, que sabotou o próprio sucesso, então as coisas ficam ainda mais esclarecidas: o que vamos assistir daqui para a frente não tem qualquer mecanismo de tensão ou mistério, sendo o espectador transformado num objeto passivo que assiste à vida dupla deste homem entrar em derrocada após trair a esposa e de ambas as “conquistas” engravidarem.
Nisto, entre a tal passividade, o nada de interessante para ver e ainda menos para refletir, “Golpe de Sorte” revela-se um exercício de puro azar para quem o escolheu assistir, onde nem as sequências animadas que acompanham a ficção, nem o último terço, que entra na esfera do horror macabro, são suficientes para nos retirar do estado comatoso em que lentamente fomos induzidos.
É que Peyer, apesar de nunca quebrar o ritmo desta sua “americanada” embrulhada em humor “vienense”, revela ter poucas armas – técnicas e narrativas – para nos dar algo além de um trabalho costumeiro. O guião é fraco, repleto de lugares comuns, superficialidades e personagens de cartão; as atuações – ao serviço desse mesmo texto – surgem com pouco carisma e sem personalidade; e a estética apropriada é profundamente antiquada, provavelmente retirada de uma cápsula do tempo com pelo menos trinta anos. O resultado final é um drama. Não no filme, mas para o espectador. A evitar.















