Ainda que não consiga escapar de forma periférica à narrativa “white-savior”, vinculada historicamente à África do Sul em filmes como “Grita Liberdade”, e à binariedade redutora das personagens (em especial dos guardas prisionais), existe algo de suficientemente tenso neste “Fuga de Pretória” que o coloca nos exercícios energéticos do subgénero de filmes de fuga à prisão.

E tudo porque o realizador Francis Annan imprime sem floreados técnicos espampanantes uma dinâmica procedimental de um plano de fuga, enquanto “educa” o público –  sem melodramatismos  – sobre um par de ativistas brancos que foram detidos por lutarem contra o Apartheid numa África do Sul segregadora. 

Vistos como traidores das suas origens pelas autoridades, como alguém que o país alimentou e protegeu até finalmente ser traído, os dois ativistas em causa são Tim Jenkin (Daniel Radcliffe) e Stephen Lee (Daniel Webber), encarcerados por distribuir material do ANC através de panfletos-bomba nas ruas do Cabo, em 1978. Foi a partir das memórias de Jenkin que Annan trabalhou o guião que dedica grande atenção e detalhe à fabricação das ferramentas e tecnologias –  que envolveram  um engenhoso sistema de chaves e alavancas falsas –  e que conduziram a uma fuga “impossível”.

Com a ajuda do diretor de fotografia Geoffrey Hall e a montagem de Nick Fenton, Annan entrega uma câmara nervosa em frequente crispação e a jogar sabiamente com espaços confinados e um tempo em permanente crescendo, sabendo centrar o seu foco através de planos médios e americanos em figuras que tentam superar barreiras e obstáculos físicos numa prisão que está dentro de outra maior. É que todo o país era um enorme cárcere psicológico para os negros e membros do ANC, não fosse o confinamento ideológico também ele uma forma de levantar muros morais (aparentemente) intransponíveis que só com muita luta durante décadas foram derrubados. 

Resta falar das interpretações, eficazes mas sem grandes laivos de genialidade que marquem a memória, ainda que o sotaque carregado de Daniel Radcliffe seja acima de tudo um elemento distrator. Nada de grave, que afete a dinâmica de um trabalho que no essencial se revela eficaz na vertente do suspense e ação, mesmo que nunca brilhe por completo na sua vertente política de confrontar o passado além da superficialidade.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
fuga-de-pretoria-as-chaves-para-a-liberdadeExercício energéticos do subgénero de filmes de fuga à prisão.