Determinação e sustento, confrontos com a lei e crises éticas, são alguns temas recorrentes no cinema dos irmãos Dardenne, realizadores belgas que venceram o Prix de la mise en scène em Cannes 2019.
Tópicos explanados em contextos de pobreza e falta de estrutura social, concentram vulnerabilidade em narrativas, através de jovens perdidos no sistema que se digladiam com problemas financeiros e acções de raiva que o instinto de sobrevivência ateia.
Seguindo as suas personagens com câmaras de instinto responsivo, mas guiadas por ensaios extensos que analisam e buscam verosimilhança, os Dardenne viajam dentro dos microcosmos sociais e psicológicos, como companheiros silenciosos, sempre perto, curiosos, procurando entender as verdadeiras motivações de cada um.
No novo filme: “Le Jeune Ahmed”, trocam os problemas económicos por ideais religiosos, e seguem os comportamentos de Ahmed (Idir Ben Addi), um jovem muçulmano de 13 anos, aspirante a terrorista.
Ahmed, influenciado pelo seu imã, começa a impor novos ideais no seu seio familiar e escolar, tornando-se odioso, antissemita, alimentando um fanatismo religioso que irá culminar num ataque físico à sua professora de matemática (Myriem Akheddiou).
Próximos, os Dardenne explanam a caminhada para o evento quase fatídico como uma linha ténue que move o filme entre o extremismo religioso e um ethos humanista. Marcam a raiva de Ahmed com cenas cheias repetições das suas acções: abluções onde lava as mãos e a boca copiosamente; sempre que se sente impuro recolhe para orar e refugiar-se no seu portátil; a ver imagens de mártires jihadistas…entre eles, um primo seu.
Apesar dos atos efervescentes de Ahmed, que atiçados pela voz flamejada do imã entraram numa cadência compulsiva, primária e unidimensional até rebentarem num gesto agressivo realizado de rosto impávido, os Dardenne não procuram explorar os motivos para a hostilidade do jovem.
Distantes, embora preocupados com o seu futuro, aproveitam para trazer ao filme um conflito moral assente no sistema social e legal.
Já conhecemos dos seus passos benevolentes para com outras personagens de filmes como “Le gamin au vélo” e “L’Enfant”, que os irmãos belgas são crentes na redenção e esperançosos que todos encontrem o seu caminho.
Então, no seu guião, enviam o radicalizado Ahmed para um centro de reabilitação, onde este imerge no sistema legal, rodeado de conselheiros, guardas, advogados e juízes.
Económico, direto e observacional, os Dardenne ativam o seu modo documental para nos ludibriar de que há aqui um processo eficiente. Com um olhar tanto de curiosidade como de compaixão contemplativa, perguntam o que o sistema faz a Ahmed, de modo a que este siga os passos estipulados para a compreensão.
Mas com o cinismo que a distância deles e a nossa ingenuidade forçada permite, como veremos, o comportamento cíclico e obtuso de Ahmed retorna, (ou nunca se dissipou), e mesmo que haja acção – com uma vida de campo e um possível namorico pelo meio – a alma do jovem aspirante a terrorista manterá a mesma motivação inevitável.
E num ato final melodramático, os realizadores belgas criam um suspense morno que nos procura aprisionar à mente de Ahmed e traz a ironia de tornar a arma que almeja a morte da infiel professora, a ferramenta da salvação.
Drama envolvente pelo ritmo das acções quotidianas e do sistema, Le Jeune Ahmed é obra que nos deixa a pensar no futuro dos vários jovens em vias de radicalização, mas distancia-se demasiado do seu exemplo primordial: o próprio Ahmed.


















