Finalmente estreou em Portugal um dos mais belos e poderosos filmes de 2012 – quase um ano depois de fazer parte da seleção oficial de Cannes. Infelizmente o material de divulgação da obra tem revelado em demasia – quando, na verdade, não é necessário saber muito para iniciar essa viagem através dos pés de Alain (Matthias Schonaerts) – que ruma da Bégica para Paris com seu filho pequeno depois de lho tirar da mãe. Não que ele saiba o que fazer com o garoto, pois consciência e afeto não são propriamente o seu forte.
Porque ele aqui representa a fúria da natureza, uma máquina de sexo e violência cujo destino vai cruzar com uma mulher física e emocionalmente devastada, a treinadora de baleias Stéphanie – a quem dedicará uma desapiedada e brutal “afetividade”. Neste mundo de orcas selvagens, lutas clandestinas e sexo desapaixonado, esqueça-se tudo o que já se viu sobre relacionamentos: sem pieguices e lágrimas fáceis, a afetividade aqui, quando aparece, e como uma espécie de recompensa.
Além do talento do realizador Jacques Audiard, esse filme não seria o que é não fosse o par de protagonistas, cujo entendimento em cena compôs aquilo que alguém chamou de “química fabricada no paraíso”. O belga Schonaerts deu nas vistas (lá fora) em “Bullhead”, obra nomeada ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira de 2011 e inédia em Portugal.
Se o realizador andou a dizer que queria introduzir um pouco de melodrama nas suas narrativas, o ator revelou à Movieline que não ultrapassar a linha que separa o drama da vulgaridade sentimental foi um dos grandes desafios do filme. “O que me fascinou nestes personagens foi que tudo estava contra eles e tiveram que ir muito longe para conquistar algo”. E se físico e espírito andam juntos, Schonaerts praticou boxe a sério durante dois meses, ao mesmo tempo que submergiu no fast food para ganhar barriga – afinal o seu Jacques é um pobretanas e não podia ser apresentado como alguém que cuidasse adequadamente da saúde.
Cotillard dispensa apresentações, mas terá sido aqui que ela atinge o olimpo das deusas do cinema. Uma deusa caída, diga-se, e tanto mais por isso, inesquecível. E a primeira coisa de louvar é que, com uma carreira internacional em alta, ela não sucumba a miragem dos blockbusters – que lhe garantem sucesso global, mas a deixariam fora de explorar todas as suas possibilidades. E é na arthouse europeia que elas existem.
Igualmente fascinada pela história, Cotillard fala em mistério quando se refere à Stéphanie – conforme entrevista à Daily Awards. Para prepará-la e vivê-la, a atriz afirma que nunca chegou a conhecer realmente a personagem – situação muito diferente de tudo que já viveu anteriormente no cinema. Ao mesmo tempo, se o seu partner andou às voltas com duplos e coreógrafos de lutas, a atriz teve a sua cota de treinos com instrutoras de baleias.
Mas as coisas não foram simples. Ela é uma defensora ativa dos direitos dos animais e disse não se sentir nada confortável em trabalhar numa parque aquático onde eles são treinados para atividades “circenses”. Por outro lado, foi logo na segunda cena em que trabalhou a “dirigir” as orcas que sentiu uma espécie de conexão com o animal – e que a tornou mais satisfeita com o trabalho. Mesmo assim, disse que jamais entrará num parque destes novamente…
Curiosamente, outra ode pouco sentimental ao amor (o filme de Michael Haneke) acabaria por arrebatar de “Ferrugem e Osso” os prémios todos a que foi nomeado – incluindo Cannes, Baftas, Globos, César etc. Exagero mas também má sorte – especialmente para Cotillard, que teve de se render a omnipresença da octogenária Emanuelle Riva. Mesmo assim, ainda sobrou “qualquer coisa” para o filme – como três Césars (incluindo um para Schonaerts) e o prémio de Melhor Filme no BFI londrino.

