Simplicidade, realismo e ternura são os elementos chave de “Benzinho”, filme de Gustavo Pizzi, coescrito com Karine Teles, que segue uma família à beira de um ataque de nervos após uma sequência de eventos alterarem e complicarem a sua dinâmica e rotinas. 

No centro está Irene (Karine Teles), casada com Klaus, 45 anos, com quatro filhos. Os filhos estão a crescer, a luta por construir uma casa nova prossegue, e o primogénito do casal, Fernando, joga andebol e está prestes a juntar-se a uma equipa profissional na Alemanha. A este drama cotidiano das dificuldades inerentes da vida, junta-se a irmã de Irene (Adriana Esteves), vítima de violência doméstica que encontra junto da mana um refúgio.

Aos poucos e poucos, a pressão diária, os problemas patrimoniais (a casa onde se entra pela janela é quase uma alegoria de todo o filme), o drama da irmã, e a saída inevitável do ninho do seu “benzinho”, colocam Irene sob enorme pressão, uma verdadeira panela de pressão pronta a explodir. Mas ela contém-se, recicla a fúria em energia (sublime a cena em que Irene ouve canta “Esófago” de Karina Buhr), e segue a sua vida como vendedora enquanto tenta obter o  seu diploma do ensino médio. 

Esteticamente aprimorado, muito próximo ao cinema independente norte-americano, mas repleto de “brasilidades” que lhe dão uma personalidade e identidade muito forte,  “Benzinho” insere-se naquela dimensão de filmes que são sobre tudo e sobre nada, algo que não o torna menos interessante ou fútil, bem pelo contrário, pois é nas entrelinhas que o cineasta e a argumentista vão deixando pistas para reflexão, desde a condição de classe, até ao papel da mulher, não esquecendo o machismo abusador que entende as relações como um direito de propriedade.

Em suma, e com uma Karine Teles (A Que Horas Ela Volta) em grande forma, especialmente na expressividade, “Benzinho” é um filme sobre a própria vida em si, a maternidade e o papel da mulher na sociedade e família, tão simples e tão complexo como tudo o que vivemos e sentimos no mais pacato ou intenso dos dias.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
Guilherme F. Alcobia
benzinho-a-vida-como-ela-eKarine Teles brilha num filme simples e terno sobre os problemas do dia a dia