A Vida que Mereces está disponível na Netflix
Curiosa a chegada de Hogar à Netflix no meio de um surto do coronavírus, isto porque o filme que nos deu a conhecer os irmãos Álex e David Pastor chamava-se Pandemia (2009). Quatro anos depois, a dupla prossegue a carreira com um filme apocalíptico em Barcelona (“Os Últimos Dias“- mais uma vez, após uma pandemia), e seguiram-se 7 anos de trabalhos na TV e escrita de guiões para cineastas (como Self/Less de Tarsem) até chegarmos a este thriller psicológico urbano demasiado familiar. Primeiro porque a dupla visita um registo mais que exposto no cinema (e TV), o dos “stalkers” sociopatas (que a meio do caminho tornam-se psicopatas), um tema amado na plataforma de streaming onde estreou (A Netflix, que tem em You uma das suas coqueluches).
Filho bastardo, ingrato e mecanizado de um Teorema de Pasolini ou de um Jovem Procura Companheira de Barbet Schroeder, Hogar conta-nos a história de um famoso publicitário, agora desempregado, em plena queda livre na sua vida profissional e pessoal. Obrigado a afastar-se dos luxos que o seu antigo estatuto lhe permitia usufruir, ele embica com o novo proprietário da sua antiga casa, aproximando-se dele e, qual Parasita, qual quê, engendra um plano para afastar o homem de cena e ocupar o seu lugar.
Se Javier Gutiérrez é sempre competente nos papéis que incorpora (até em Campeones conseguiu brilhar), Hogar nunca se afasta dos lugares comuns neste processo de inversão de papéis de personagens, fracassando sobejamente na interação entre protagonistas (Mario Casas a ver navios e sem química com Gutierrez). Estranhamente, e ao contrário por exemplo da obra de 2013, Hogar revela-se esteticamente frágil e derivativo, um produto anónimo como quaisquer outros do cinema e streaming atual, movido a algoritmos, que pega num género tão usado nos anos 80 e 90 e dá-lhe uma dimensão de guerra de classes em tempos de sucessos de Bong Joon Ho (Snowpiercer; Parasite) em torno do tópico.
No meio de tudo isto, já visto e revisto por outros cineastas bastante melhor, diagnostica-se a marca pessoal dos Pastor: seja um vírus, uma fobia ou um sociopata, a dupla gosta sempre de colocar as suas personagens perante pragas. E o nosso publicitário é isso mesmo, uma entidade oportunista, um manipulador que carrega todo o cinismo e egoísmo do mundo em nome da justiça.















