El Hoyo (The Platform) está já disponível na Netflix

Numa semana em que os supermercados foram invadidos e “pilhados” deixando muitos, especialmente os mais frágeis (idosos), sem mantimentos, a Netflix estreia The Platform, um objeto altamente conceitual que nos apresenta um edifício brutalista na forma de “uma prisão” onde os detidos (um misto entre forçados e voluntários) espalham-me por entre os 200 andares (níveis) que o compõem.

No meio das “celas”, onde apenas se encontram 2 indivíduos, desce diariamente na plataforma (chamada por todos de “O Buraco”) um banquete de comida, que alimenta os 200 andares, comendo os de baixo o que os de cima desprezaram ou não tiveram tempo de açambarcar (uma das regras é que nenhum pode guardar comida).

Tal como Snowpiercer, por exemplo, em que a estrutura de classes estava disposta num comboio em que quanto mais à frente nas carruagens, melhor tratados e mais luxos os habitantes tinham, aqui sucede o mesmo, com os que estão acima a alimentarem-se bem e os do fundo a serem esquecidos e desprezados, sendo frequente os habitantes destas celas serem transferidos para um nível superior ou inferior, como se de um verdadeiro jogo macabro se tratasse.

Sim, Saw, Cubo, Iron Dors, A Experiência e até o “velhinho” Anjo Exterminador de Buñuel vêm a cabeça e o cineasta em estreia – Galder Gaztelu-Urrutia – conduz-nos com agilidade e imprevisibilidade q.b. numa viagem a uma metáfora dos nossos tempos, ao nível da velha alegoria das Colheres Longas (que ensina que quando lutamos para nos alimentar apenas a nós mesmos, todo o mundo passa fome), produzindo um filme intenso, eficaz e cheio de gore, mesmo que as suas personagens estilizadas caiam no cliché (a misteriosa asiática assassina, o negro de cadeira de rodas místico; o velho diabólico), exista a subtileza alegórica de um martelo pneumático, e que derradeiramente se atinja uma valente dose de pretensiosismo ao tentar dar um final aberto que acaba por revelar mais confusão e pedantismo que o desejável.

O nosso herói central (Iván Massagué), um voluntário que não fazia ideia no que se está meter, acaba por ser o elemento chave que tenta criar uma certa estabilidade e regra para um local onde o pior de cada ser humano vem à flor da pele na luta pela sobrevivência. O resultado disso é que é chamado de comunista, isto quando implicitamente tenta espalhar a mensagem de racionar os alimentos para chegarem para todos. O resultado é precisamente o contrário, com o ódio, a ganância e o triunfo dos mais fortes (aqui os mais acima) a vir ao de cima em todo o seu esplendor. Mas não é assim a humanidade, como se tem visto nestas últimas semanas?

Um curioso trabalho que merece uma olhadela e que se percebe porque conquistou o Festival de Sitges.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
Hugo Gomes
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