São notórias as inspirações na obra de Mark Twain, em especial em Aventuras de Huckleberry Finn, neste O Falcão e a Manteiga de Amendoim, um drama “on the road” extremamente simples, delicado e humano sobre a camaradagem entre dois homens em fuga numa América que os persegue, cada um à sua maneira.

Zak (Zack Gottsagen) é um jovem de 22 anos com Síndrome de Down que ambiciona fugir do lar onde foi colocado sob supervisão de Eleanor (Dakota Johnsson). O seu sonho é chegar à escola de wrestling dirigida pelo seu ídolo, The Salt Water Redneck (Thomas Hayden Church). É numa fuga tão divertida como desajeitada, com a ajuda de um idoso (Bruce Dern), que Zak vai cruzar o seu destino com outro homem em fuga, Tyler (Shia LaBeouf), partindo os dois numa jornada repleta de perigos, sentido de aventura e descobertas pessoais por entre pântanos, campos de milho e músicas country numa América tão esquecida e profunda como eles mesmo.
Construído num registo feel good abnóxio que nunca verdadeiramente surpreende, O Falcão e a Manteiga de Amendoim assenta toda a sua dinâmica numa simplicidade de procedimentos e no seu tom de fábula sem nunca perder algum sentido de realismo. Os estreantes Tyler Nilson e Mike Schwartz envolvem o espectador numa teia de misticismo acompanhando duas personagens deslocadas da sociedade, nunca arriscando muito, mas fazem-no com maturidade e suficiente força estética para nos acondicionar num espaço geográfico específico que nos coloca também em fuga com os protagonistas.
E claro está, muito do filme resulta da química entre o magnético Zack Gottsagen (que desde jovem atua) e Shia LaBeouf (enfant terrible à procura da redenção), a quem se junta mais tarde Dakota Johnson, para completar uma história emocional e sensível fora dos padrões do cinema de Hollywood, que embora possua um arco narrativo trivial, nunca se mostra condescendente, paternalista ou manipulador.

Jorge Pereira

