«The Necessary Death of Charlie Countryman» (Uma Morte Necessária) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Aquilo que sobra de estética de videoclipe a este The Necessary Death of Charlie Countryman falta-lhe em termos de cinema. David Fincher conseguiu entender isso na sua passagem de realizador de anúncios e videoclipes musicais para a 7ª arte, balançando bem a estética, a narrativa e nunca descurando as suas personagens. Rupert Wainwright, Antti Jokinen e agora Frederik Bond nem por isso, embora este último seja o que deixa melhores indicações na estreia. O facto do argumento ter sido executado pelo mesmo autor de Projet X (outro filme onde a estética abalroa os sentidos), Matt Drake, certamente não ajuda.

The Necessary Death of Charlie Countryman é puro estilo (na forma de caricata trip sensorial), ambiente (entre o doce, o negro e o surreal) e ingenuidade (das personagens e do amor exposto), tudo envolvido num arranjo de ritmo acelerado e de uma fotografia que carrega na palete de cores para entupir e deslumbrar (ou encantar) os nossos sentidos e com isso também tapar todos os buracos, exageros e debilidades de um guião que procura a originalidade mas que cai num looping revelador do esgotamento de ideias.

Charlie (Shia LaBeouf) é um jovem que, depois de a mãe morrer viaja para Bucareste para pôr as ideias no sítio, acabando por se apaixonar por uma jovem cujo último relacionamento foi com um grande barão do crime. Possuindo apenas criatividade e charme, Charlie vai tentar conquistar a mulher e salvá-la das garras do crime, nem que para isso tenha de morrer. Lola (Franka Potente) teve de fazer algo semelhante nos anos 90 ao seu Manny, mas na época Tom Tykwer soube conter-se na salvação do seu amor fustigado por um ato de banditagem. E para isso nem precisou de desacelerar no tom frenético, ou de conter-se em termos visuais e sonoros no seu eletrizante Corre Lola Corre.

Há que dizer que quer Shia LaBeouf quanto Evan Rachel Wood e Mads Mikkelsen cumprem com os seus papéis, mas o primeiro consegue levar a sua personagem por diversas vezes para fora dos seus clichés, como se o amor fosse tudo o que precisasse no seu fraco estado emocional. Mikkelsen, ao contrário, apesar do carisma natural, acaba por fazer mais do mesmo, especialmente nestes últimos anos em que surgiu em papéis marcantes como vilão. Já Rachel Wood é profundamente instável na sua performance, embora seja difícil perceber onde acaba a culpa da sua personagem  e onde começam os seus erros na abordagem a Gabi. Rupert Grint e Melissa Leo, dois secundários de luxo, são aqui apenas adereços…

No final, temos  uma fita acima de tudo pouco balançada, não muito coerente e até desajeitada, que serve mais como boa indicação para o futuro do realizador do que como filme no imediato.

O Melhor: Embora por vezes o filme pareça um showreel que serve como antologia da expressividade de Shia LaBeouf, o ator consegue suster o filme com a sua personagem
O Pior: Desajeitado, incoerente, repetitivo, forçadamente ingénuo e demasiado plástico


Jorge Pereira

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