«A Million Ways to Die in the West» (Mil e Uma Maneiras de Bater as Botas) por Nuno Miguel Pereira

(Fotos: Divulgação)

Quem viu Family Guy, American Dad, ou ainda Cleveland Show. Quem teve a oportunidade, ou o desejo, de tomar atenção no filme Ted. Para esses, é fácil saber o que esperar de Seth Macfarlane. Nesse sentido, quem gosta, irá a correr para o cinema; quem odeia (pois com Seth não há meio termo), irá na mesma correr para o cinema, para ter a oportunidade de se juntar ao coro repetitivo das, igualmente repetitivas, críticas.

Essa política de maldizer é tão ou mais redundante quanto as obras de Seth Macfarlane que, não fugindo a um tipo muito específico de humor com prazo de validade, vão funcionando. Em Mil e Uma Maneiras de Bater as Botas isso volta ocorrer. Os ingredientes estão cá todos, a sátira à sociedade americana, a crítica aos costumes religiosos e conservadores, extremamente incoerentes, dos “nativos” deste país – e que facilmente se poderia estender ao resto do mundo. O objetivo é dar mais do mesmo, com uma roupagem diferente, e acrescentando algo, em relação a Ted. Nesse sentido, a história é só um ornamento para um festival (ou será chavascal?) de piadas, algumas de gosto questionável, mas que invariavelmente provocam risos.

Contextualizando; nos confins sulistas da América dos finais do séc. XIX vive Albert (Seth Macfarlane), um pastor de ovelhas, com pouca apetência para as armas e um vocabulário e sentido de humor muito à frente do seu tempo. Talvez por essas razões, é deixado pela sua namorada Louise (Amanda Seyfried), que se prefere juntar a Foy (Neil Patrick Harris – o garanhão da aldeia, que puxa dos seus galões de Barney para este papel, com direito a catchphrases de How I Met Your Mother). Felizmente, para Albert, Anna (Charlize Theron) surge no seu caminho, ajudando-o a conquistar de volta Louise (e nós já sabemos como isto acaba). Por outro lado, o único senão de Anna é ser casada com o bandido mais mortífero do Oeste, Clinch Leatherwood – interpretado por um Liam Neeson, versão Dirty Harry Clint Eastwoodiana (perceberam a analogia “inteligente” das palavras?).

A questão da inteligência é o ponto fulcral neste filme e no tipo de humor apresentado. Seth (que aparece em todas as cenas) centra o filme à sua volta, enveredando por uma série de situações “choque” e de nonsense já típicas e adicionando cenas gore, carregadinhas de sangue à trama (vocês vão rapidamente perceber o porquê do nome do filme).

Certo é que, ao contrário do que se possa pensar, existe alguma inteligência nos diálogos (em alguns), misturada com piadas envolvendo pénis de carneiros e cocó de cavalo (piadas muito gráficas). Aqui vislumbra-se a tentativa de criar humor partindo de uma filosofia: a aleatoriedade da vida e a falta de nexo para as coisas que acontecem. Dessa forma, não há qualquer explicação para a aleatoriedade, nem para o caos. Apenas a apresentação de uma filosofia, disfarçada de cocó de vaca e de um vernáculo tão exagerado quanto a beleza de Charlize Theron.

Nota final para algumas referências cinematográficas, que são expostas de forma óbvia ao longo do filme e uma cena pós-créditos curta, mas memorável.

O melhor: Charlize Theron e alguma inteligência em alguns diálogos.
O Pior: Por vezes faz lembrar as comédias de Adam Sandler


Nuno Miguel Pereira

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