«Edge of Tomorrow» (No Limite do Amanhã) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Não é à toa que Edge of Tomorrow (No Limite do Amanhã) vem dos EUA com o rótulo de mistura explosiva de Groundhog Day (O Feitiço do Tempo) com Starship Troopers (Soldados do Universo). Na verdade, o filme resume-se na perfeição a essas poucas linhas.

Nesta adaptação e ocidentalização ao cinema da obra de ficção científica All You Need Is Kill, do japonês Hiroshi Sakurazaka, Tom Cruise é Cage (nome semelhante ao Keiji da obra nipónica), um major do exército sem qualquer experiência de combate. Habituado a lidar com a guerra em termos de marketing e atrás da secretária, ele é colocado na linha de frente por um general (Brendan Gleeson), tendo assim de lidar com um desembarque em França a recordar o famoso dia D. Durante a batalha, Cage é morto, mas posteriormente acorda no dia anterior, tendo de reviver novamente os eventos. A situação repete-se exaustivamente:  o major morre em combate e volta a acordar no dia anterior. O que terá este homem que o faz reviver aquele dia aparentemente de forma infinita?

A dimensão politica e social deste conflito com os Mimics, uma entidade alienígena – alguns dos quais parecem uma espécie de sentinelas orgânicas e não metalizadas de Matrix -, não existe, ficando assim tudo resumido a uma fita militarista de salvação da humanidade onde os momentos de emoção advém mais da interação entre as personagens interpretadas por Tom Cruise e Emily Blunt.

As cenas de guerra, repetidas vezes sem conta, primam pela estética de transportar o caos até ao espectador, existindo assim demasiadas vezes momentos de ação frenéticos e confusos (o 3D ajuda nessa sensação), não faltando mesmo a típica câmara “na mão” a acompanhar o soldado. O resultado é um filme de ação entre o videojogo (até porque quando a personagem perde, volta atrás e corrige os erros) e um suposto realismo à Resgate do Soldado Ryan, sem que exista uma sequência em todo o filme que possamos dizer que fica na nossa memória.

Quanto às personagens, também não ficamos a saber muito delas. Cage é um daqueles empreendedores das palavras com falta de calos nas mãos e que, quando é colocado perante uma ordem superior, tenta escapar com a cauda entre as pernas. Pelo caminho, e como Bill Murray em O Feitiço do Tempo, ele também vai se tornando numa pessoa melhor mas, acima de tudo, um soldado implacável, cujo objetivo final é enganar o destino, salvar a humanidade e talvez até ficar com a dama. Este papel do homem que tem de lutar contra inimigos poderosos e ainda “escapar” às suas próprias forças, das quais se viu proscrito e rebaixado, assenta bem em Cruise (basta lembrar o último Missão Impossível), mas já o vimos fazer mais e melhor em termos orgânicos e da dimensão da sua personagem.

Já Blunt revela força na sua faceta de estrela de ação militar, representando com vivacidade e credibilidade uma verdadeira Full Metal Bitch, nome pelo qual é apelidada pelos colegas pelo seu estatuto de implacável em combate. Quando é chamada a dar mais profundidade à sua Rita Vrataski, ou ao passado desta, a atriz também cumpre a sua obrigação, mas o guião – inteligente na forma como desenvolve a história – é sempre parco naquilo que tem a dizer sobre as pessoas, preferindo caminhos genéricos e apressados.

Ora, numa fita em que apesar do elevado ritmo a ação não se destaca e onde as personagens são limitadas, as coisas nunca poderiam ir mais além do entretenimento de circunstância. Ou seja, estamos perante um filme que se vê, que tem algum humor (em particular a personagem de Bill Paxton no início), inteligência (acima da média para um blockbuster de verão), mas que não deixa a sua marca nem deixa sequelas positivas para além do conceito atraente.

Nisto, pena é que quem escreveu e realizou No Limite do Amanhã não possa voltar atrás e refazer muitos dos seus momentos. Talvez aqui estivesse um grande filme. Talvez…

O Melhor: Apesar de derivativo, o conceito é atraente
O Pior: Ação mediana, demasiadas vezes confusa e sem qualquer momento de brilhantismo


Jorge Pereira

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