
Um filme sobre o drama real ou o conto de fadas da vida de Grace Kelly, tornada Princesa do Mónaco, ao casar com o Príncipe Rainier, tinha tudo para dar um bom filme. E com a oportunidade de ser o filme escolhido para abertura da 67ª edição do festival de Cannes. Melhor, de facto, seria impossível. No entanto, Grace de Mónaco começou logo por tremer ao não colher a aceitação da família Grimaldi, que não se revê na “ficção” ensaiada pelo realizador francês, Olivier Dahan, e deixou também descontente Harvey Weinstein que desejava estrear uma versão diferente nos EUA. De resto, a questão é explicada no periódico The Hollywood Reporter de hoje (quarta-feira) sugerindo que também Harvey poderia juntar-se às ausências reais no desfile na passadeira vermelha. Na verdade, diga-se, foi bem morna a recepção desta versão ficcionada do autor de La Vie en Rose.
É então pena que um filme sobre a união da realeza monegasca com a princesa de Hollywood acabe por desbaratar o seu potencial em intrigas em família e intrigas internacionais, passando ao lado do “conto de fadas” e acabando por cair numa banal novela. E o mais estranho é que Dahan nem sequer tire partido das alegadas infidelidades tanto de Grace como de Rainier, que seguramente esquentaram a relação de ambos, e opte por se explorar um “affaire” político entre De Gaule e Rainier sobre a imposição de pagamentos de impostos ao principado. Com o cúmulo de ameaças de uma invasão.

Pelo caminho há ainda a deslocação de Hitchcock (o credível Roger Ashton-Griffiths) ao Mónaco para convencer a sua “princesa” a aceitar o protagonismo em Marnie, para além da presença dada a Onassis (Robert Lindsay) e até Maria Callas (Paz Vega) num número musical a anteceder o discurso que faz também o suposto climáx do filme com o discurso de graça de Grace. Para piorar, o afável Tim Roth pouco (ou nada) acrescenta a Rainier, sem sequer espaço para transparecer esfriamento do romance com a esposa. Na verdade, pelo filme de Dahan, apenas sabemos desse mau estar emocional quando o casal refere que vivia em quartos separados. Perde-se então um filão emocional relevante. Quem sabe, se calhar, até por isso os Grimaldi se terão afastado do filme..
Quanto ao trabalho de Dahan, não é por aí que o filme fica ferido, já que o realizador cumpre uma realização eficaz, ainda que sem deslumbrar. Já o guião de Arash Amel (que apenas havia escrito O Expatriado, com Aaron Eckhart e se prepara para passar à escrita a sequela de I Am Legend) deixa muito, mas muito a desejar.
Resta-nos Nicole como uma verdadeira “rainha” da interpretação. Ela que na conferencia declarou sentir-se “triste” pela reação dos Grimaldi. “O filme não tem qualquer malícia sobre os Grimaldi e os Príncipes“. Pois não, mas deveria ter. Ou não? Ou seja, em vez do estado de graça, ficamos em estado de desgraça…
O Melhor: Nicole Kidman
O Pior: a forma como o filme passa ao lado de um bom “conto de fadas”

Paulo Portugal

