
As viagens à América profunda e interior tendem a ser penosas para as suas personagens no cinema independente. Assim foi no tour de force de Jennifer Lawrence Winter’s Bone, na pérola indie The Dynamiter e o mesmo sucede neste Joe, até agora o melhor trabalho no cinema de David Gordon Green, um cineasta cujos tropeções das suas comédias Real Desatino e A Desbunda parecem provar que se trataram de acidentes de percurso, acabando esta fita por regressar aos tons independentes e autênticos que marcaram o início da sua carreira.
Em Joe – que se inspira livremente numa obra literária de Larry Brown – seguimos uma personagem homónima martirizada pelo passado, limitada a poucas opções de vida e pouco capaz de controlar os seus atos. Pior que isso é só o facto de tudo em seu torno ser decadente, sujo e ilegal, numa América incapaz de corrigir as desigualdades e onde o interior está repleto de cidadãos considerados de segunda e com muitas limitações para o futuro. Do seu estatuto de ex-condenado, ao seu emprego que consiste em matar árvores para facilitar o seu abate, passando por vendettas antigas que o perseguem e nunca esquecendo um cão «maldito» e um bordel decrépito que parece ser o consolo da sua “vida” atormentada, Joe encontra no jovem Gary (Tye Sheridan) uma espécie de antítese de coração «puro» que até se pode perder pelos mesmos caminhos errados que ele seguiu. Esta espécie de motivação e apadrinhamento do jovem dá um pouco mais à sua vida de sobrevivência e com muito pouco de belo, onde a distância entre a redenção e o crime é demasiado ténue e a sua incontrolável forma de agir torna tudo imprevisível.
O argumento de Gary Hawkins apoia-se essencialmente nas personagens fortes, moralmente decrépitas e profundamente desprezíveis, funcionando Gary como a única luz de esperança para uma nova geração. A desconstrução e estudo dessas mesmas personagens é apoiada por interpretações fortes e seguras de um elenco que mistura atores profissionais e profundos amadores. Nicolas Cage, Tye Sheridan e Ronnie Gene Blevins surgem em grande forma, mas é um desprezível e ignóbil Gary Poulter, um não ator que na vida real acabaria por morrer afogado e intoxicado com Álcool, que se destaca das demais. A interpretação deste é de uma autenticidade mórbida e uma grande dose da imprevisibilidade nesta “poorexploitation” vem do seu desempenho como um pai abusivo, amoral e profundamente detestável. A estas “doenças” da América, Green ainda acrescenta algumas vozes da consciência/ “anjos” e que se revelam um valor acrescentado para o tom do filme, como um polícia que intervém algumas vezes a favor de Joe e que vimos a saber encontrou o seu caminho redentor.
Com reminiscências da literatura de Faulkner, do cinema de William Friedkin, Jeff Nichols e até dos irmãos Polish (há alguns momentos entre o visceral e o místico, como o assassinato de um sem abrigo), Joe de David Gordon Green é assim uma obra a ter em conta no cinema independente dos dias de hoje, um triunfo de casting e que prova que ainda há muito para dizer sobre a América profundamente desigual, limitante e claustrofóbica.
O Melhor: As personagens e os atores
O Pior: Nada a apontar

Jorge Pereira

