
O desarmante e divertido documentário de Jorge Furtado agitou o CinePE. E da melhor maneira, porque O Mercado de Notícias, apresentado na Mostra Competitiva de longas metragens e documentários internacionais, realiza um acutilante exercício de espelho sobre a atividade jornalística, sobre o “nosso” incerto futuro, superado pela “cacofonia” da globalização das notícias, pela pressa de criar manchetes, muitas vezes sem um conteúdo que lhe corresponda, pela apreensão do imediatismo “blogger”, sem edição ou confirmação.
Em suma, o jornalismo para “agradar ao chefe” e à publicidade. Isto seria suficiente para aguçar a curiosidade de qualquer escriba que se preze. Só que o cineasta com percurso também na imprensa e estudos de medicina e psicologia não se coibiu de polvilhar o filme com alguns casos caricatos de jornalismo mal disfarçado que fizeram furor (e manchetes!) na imprensa dominante brasileira. Escusado será dizer que não foram raras as vezes que o público da gigantesca sala do Teatro Guararapes, em Recife, irrompeu em aplausos de puro delírio.
A ideia de O Mercado de Notícias germinou a partir de uma peça britânica, The Staple of News, do século XVII, assinada pelo dramaturgo britânico Ben Johnson, contemporâneo de Shakespeare, aqui na sua primeira tradução para português, na altura em que surgia o jornalismo impresso graças à aplicação da técnica da impressão inventada por Guttenberg. E é de forma algo paradoxal que percebemos como as preocupações dos media acabam por ser as mesmas quatro séculos depois. Esses segmentos acrescentam uma suplementar leitura ao filme ao serem servidos por personagens picarescas, como a Madame Censura ou a Madame Expectativa, que vão interligando os depoimentos e inquietações de alguns de treze jornalistas brasileiros.
Este tom de comédia não é ocasional na obra de Furtado. Aliás, a sua magnífica curta A Ilha das Flores (1989) e a comédia O Homem que Copiava (2003) continuam a ser incontornáveis. Aqui são as “barrigas” (notícias falsas) que fizeram manchete, como o caso do “Picasso do INSS”, em que a imprensa brasileira de referencia tratou como obra de arte uma reprodução barata de uma gravura de Picasso, apesar dos alertas de alguns leitores. Outra foi gerada pelo caso “da bolinha de papel” atirada à cabeça do candidato José Serra, nas eleições de 2010, fazendo com que o político interrompesse a campanha eleitoral para fazer uma tomografia cerebral. Furtado serve-se de várias câmaras de tv na altura para demonstrar vários planos em que se vê a “bolinha de papel” atingir a careca de Serra. Furtado refere ainda dois outros casos, o da “tapioca” em que um político é acusado do abuso do cartão de crédito em R$ 8,30 na compra de uma tapioca, fora do alcance geográfico do cartão. E ainda uma escola da região de São Paulo que fora fechada devido a uma acusação de abuso sexual, que se veio a provar ser falsa.

Jorge Furtado fala sobre o documentário O mercado de notícias | Divulgação/Daniela Nader
No entanto, “o filme é uma defesa do jornalismo“, referiu o realizador de 54 anos, num posterior encontro com a imprensa. Pelo menos do bom jornalismo, acrescentamos, daquele que irá sobreviver para além da tal “cacofonia” das notícias.
O Melhor: Para além da originalidade do tema, destaca-se a forma como Jorge Furtado funde a adaptação da peça original do século XVII, com os depoimentos de jornalistas conceituados e o “tempero” das “barrigas” jornalísticas.
O Pior: Talvez algum excesso de depoimentos. Ainda assim, serve para memória futura uma espécie de cartilha do jornalismo que deve contar.

Paulo Portugal

