
São as declarações de Felipe González em 1982, após ganhar as eleições que afastam o fantasma dos tempos do franquismo em Espanha, que servem de prólogo para este El Futuro, uma verdadeira cápsula do tempo construída como uma espécie de found footage a 16 mm de montagem propositadamente rude e crua que se desenrola numa única noite e que sintetiza de forma bastante inteligente e simbólica todos os excessos que se seguiram e que conduziram Espanha ao estado em que está hoje.
E o mais curioso é que apesar da música espanhola, dos temas espanhóis (há discussões sobre a ETA) e até do prólogo onde o político espanhol abre uma janela para o futuro, esta noite bem podia servir para refletir sobre os caminhos que muitos países, como Portugal, trilharam após longos períodos ditatoriais.
Compreenda-se que na sua essência, El Futuro não tem uma história ou sequer personagens. Bem vistas as coisas, e com exceção de alguns diálogos, o filme comporta-se como uma obra muda, mas em vez de retirar o som completamente, Luis López Carrasco aumenta-o através das músicas, tornando-se impossível para nós entender o que se fala ou o que se passa naquele grupo de boémios. Nisto, e como alguém meio embriagado que vagueia por uma festa sem conhecer ninguém nem entender nada, ficamos entregues às expressões de quem nos aproximamos, às suas roupas, maquilhagens, penteados e às suas atitudes hedonistas, daquelas como se não houvesse amanhã, como se liberdade adquirida fosse um fim e não o principio de uma nova era que teria forçosamente de ser estimada e trabalhada para funcionar. No fundo, essa imposição sonora demonstra o que nos tornámos: uma sociedade do ruído, da aparência, do consumismo, das conversas estéreis, dos excessos e onde apenas absorvemos algumas frases feitas e repetidas, como os refrões de algumas das musicas deste filme [como «Nuclear Sí», dos Aviador Dro], que claramente são propositadamente e acentuadamente mais memoráveis que as conversas.
No final, temos assim uma obra ímpar, tão difícil de ver, como de aceitar, até criticável para quem olhar para ela com olhos académicos. Uma coisa é certa: a ressaca desta festa estamos todos até agora a pagar…

Jorge Pereira

