«Compliance» (Obediência) por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

Durante o visionamento deste Obediência, foram tantos os pensamentos da categoria “eu não acredito que isto está mesmo a acontecer”, que por uma vez, a decisão de espetar nos créditos iniciais “Inspirado em factos reais” foi bem-vinda. Não que não acreditamos que isto tenha de facto acontecido – o mundo está repleto de situações limite, e esta testa uma condição básicas do ser humano enquanto ser social, afinal (!), a noção de confiança, e de ordem e respeito pela hierarquia mais superior. Mas porque de facto, precisamos de recorrer a essa nota mental para nos deixarmos de equívocos e aceitarmos de uma vez por todas que a realidade é ainda a melhor fonte de inspiração para alguma da melhor ficção.  

Dito isto, perante um ensaio social (que é também uma sátira camuflada a toda uma cultura ocidental baseada num esquema de pirâmide totalitarista, e cego, desconstruindo mais a frio o filme) tão capaz de irritar o espectador mais frio – e digo isto com o melhor dos elogios, atenção! – a reação natural é querer que isto passe depressa, tal é a intensidade e a estupefação a escalar. Craig Zobel, um norte-americano com um sentido auto-crítico que seria catalogado de criminoso em certos períodos históricos, sabe o que faz nesta sua terceira longa-metragem, e sabe que manter o espaço restrito ao restaurante de “fast food”, e mais concretamente ao armazém onde uma empregada é retida, despida, e abusada, tudo porque uma voz de “polícia” do outro lado do telefone comanda, é o rumo perfeito para uma reflexão maior sobre tudo o que nos rodeia. Há quem vá argumentar que o filme perde força assim que a voz ganha um corpo. Concordarei em discordar; não acho que seja falta de arrojo, acho que o filme tem até um dos maiores fôlegos nos seus últimos minutos, onde uma conversa mundana “fora de gravação” tem mais a dizer sobre a nossa humanidade que qualquer “dramédia” independente posta em Sundance nos últimos anos. Há que destacar, para além da realização, a banda sonora orquestral a jogar bem com o tom claustrofóbico e crescentemente desconcertante da película, e claro, as interpretações naturalistas de um elenco quase todo  ele composto por célebres desconhecidos.

Uma obra cruel, perspicaz e capaz de agitar futuras discussões intelectuais só pela variedade de temas fulcrais que levanta. Como é que isto tem passado ao lado é por si só tão ou mais deprimente como a mensagem que o próprio filme coloca (e que pesca a teoria da “banalização do mal” de Hannah Arendt, em boa conta, como um amigo meu referiu…).  

O melhor: O olhar implacável a disparar por várias dimensões, com base numa história que poderia ser quase tomada como uma anedota de mau gosto. 

O pior: Mais que pensar que isto aconteceu realmente, pensar que um filme tão socialmente importante como este está a passar completamente despercebido. 

André Gonçalves

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