Depois de surpreender tudo e todos com o documentário de animação Waltz with Bashir, Ari Folman apresenta-nos uma crítica ao rumo que o cinema comercial leva, um manifesto e tentativa de salvação da 7ª arte. No filme seguimos Robin Wright (que se interpreta a si mesma), uma atriz que aceita o papel final da sua carreira: a venda da sua imagem e identidade para ser digitalizada e usada em qualquer filme de Hollywood.
Folman propõe-nos um ambiente futurista em que a banalização dos meios tecnológicos e da mentalidade de vendas (no ramo cinematográfico) leva à decadência da vida humana. As consequências são desastrosas, na medida em que as pessoas optam pela fantasia de uma vida falsa, um sonho lúcido, ao invés de viverem a realidade. A ganância dos produtores; a cegueira e o desespero de uma atriz que caiu no desconhecido ao longo dos anos; tudo isso é massacrado em “The Congress”. O filme conta também com uma animação primorosa, que ocupa cerca de metade da duração do mesmo, na medida em que nos transporta para o tal território em que tudo é possível e as pessoas são tentadas pelo sonho como manobra de fuga para os seus problemas.
Ari Folman cria uma grande obra. Os momentos musicais, por parte de Max Richter (que já havia trabalhado com o realizador em “Waltz with Bashir”) são intensos e memoráveis (especial destaque para a cena de digitalização e o momento “Forever Young”), o visual é arrebatador e Robin Wright arranca a sua melhor prestação no cinema dos últimos anos. Destaque ainda para a referência (em tom de homenagem) a “Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb“.
Todo o cinéfilo devia apreciar esta obra, é atual e alerta-nos para um problema que se dirige ao cinema. Além do conteúdo bastante pertinente, tecnicamente é arrojado mas intocável e tem vários momentos de beleza artística. A inovação, provocação e atrevimento são palavras que caracterizam na perfeição esta última obra de Ari Folman. Dos melhores filmes do primeiro trimestre de 2014.

Miguel Pinto

