
No início do filme somos imediatamente avisados: “baseado numa história verídica“, não vá o espectador se esquecer de chorar, por achar que a história é inventada. Como é óbvio, cada vez que se conta uma história acrescenta-se uma realidade, por isso, ter a necessidade de mostrar que isto foi o que se passou ipsis verbis são balelas comercias. Felizmente, as balelas em Uma Longa Viagem ficam-se pela parte inicial.
A história foca-se em Eric Lomax (Colin Firth), um veterano da segunda grande guerra que, na década de 80, continua a sofrer de depressão pós-traumática, sofrida 4 décadas antes, pelas mãos das tropas japonesas. A tortura sofrida tornou Eric num homem taciturno e deu-lhe um gosto invulgar por caminhos-de-ferro e comboios. É numa dessas viagens que, inadvertidamente, conhece Patricia Wallace (Nicole Kidman).
Esta é a parte da obra que se assemelha a um Antes do Amanhecer com stress pós-traumático. Isto é, diálogos menos fluidos, situações precipitadas e uma paixão assolapada criada num percurso de um par de horas. Sendo este filme com uma agenda comercial, no meio de toda a dureza da temática (da tortura e da guerra), tinha de existir espaço para uns minutos de romance adolescente e tolo, com direito a corridas de 100 metros à beira mar (só faltava a música da Celine Dion e isto poderia ser a adaptação de um qualquer livro de Nicholas Sparks).
Felizmente, e para o bem de todos, o filme rapidamente “encarrila” e foca-se na sua história principal. Nesse aspeto, a personagem de Stella Skarsgård e Hiroyuki Sanada revolucionam o filme.
A partir daqui temos diálogos bastante sóbrios e sem excessiva dramatização. As imagens vão ajudando a contar a narrativa e os constantes flash backs dão um ritmo à obra progressivamente mais acelerado, até a um clímax final intensíssimo, capaz de desarmar qualquer um.
No meio de tudo, há que ressalvar a prestação de Colin Firth, que consegue fazer transparecer uma dor imensa que a sua personagem carrega. Por outro lado, temos uma Nicole Kidman versão bibelô australiano, sendo que a culpa é mais pela sua (falta de) personagem, do que pela sua interpretação.
O melhor: O trio Colin, Stella e Hiroyuki e a dureza da narrativa.
O pior: Os primeiros 30 minutos da obra são completamente desligados dos restantes.

Nuno Miguel Pereira

