«Matei Child Miner» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

O cinema romeno sempre deambula entre as questões sociais e os dramas pessoais, normalmente associados a famílias disfuncionais, vivam estas em regiões fortemente cosmopolitas ou mais isoladas, como é o caso deste Matei Child Miner, o primeiro filme ficcional da documentarista Alexandra Gulea.

No filme, que passou pelo Fantasporto, seguimos Matei, um rapaz de 11 anos que vive numa decadente região onde a indústria mineira já não consegue oferecer emprego aos seus habitantes, sendo estes assim obrigados a emigrar. É o caso da mãe de Matei, que encontrou em Itália uma nova vida, deixando o rapaz entregue ao avô. Com conflitos na escola e uma relação complicada com o seu familiar mais próximo, Matei envolve-se em diversos problemas, que culminam mesmo na sua expulsão da escola e numa perspetiva de futuro cada vez mais incerto.

O que mais se destaca nesta obra é a forma como Gulea conduz a sua câmara, pois, mais que focar-se nas questões sociais, a romena foca a sua atenção no rapaz e na sua intimidade e dia a dia, assistindo o espectador aos eventos pelos seus olhos, sendo claro e óbvio que estas são as novas vítimas da globalização, pois sem os guias para a vida do amanhã, o hoje torna-se um calvário difícil de ultrapassar. A ingenuidade e ilusões típicas da idade do rapaz, que na verdade nunca revela ter um mau coração, é um dos trunfos da obra, até porque nos ajuda a chegar mais perto da personagem e a ser absorvido pelo enredo, que só peca pela falta de arrojo em ir mais longe no estudo da sua personagem.

No todo, estamos assim perante um curioso filme, onde até não falta algum humor, mas a forma composta e contida como é executado tira-lhe espaço para se destacar no panorama do cinema europeu e em particular no romeno.

O Melhor: Gulea tem um grande olho para a beleza das paisagens urbanas e naturais
O Pior: Demasiada contenção


Jorge Pereira

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