«August: Osage County» (Um Quente Agosto) por Dias Martin

(Fotos: Divulgação)

«Entre a conceção e a criação,
entre a emoção
e a resposta,
desce a sombra.
A vida é muito longa.» T.S. Elliot

É no seio de uma família que nasce e vive este filme. Uma família disfuncional que na sequência de um acontecimento é convocada a reunir-se e que, apesar das inúmeras distâncias que os separam, prontificam-se a isso. São as relações entre as pessoas e como são afetadas as personalidades que John Wells expõe nesta tragicomédia, que por inúmeras vezes nos faz sorrir, em função das intervenções despropositadas, ou das reações espontâneas sem filtro de qualquer espécie dos elementos deste seio familiar. Aqui, não existe medo de ser politicamente incorreto.

Por outro lado, este é um filme suportado por maravilhosas interpretações. O experiente Sam Shepard abre o filme, com a sua melíflua voz, quase que a transportar-nos para o universo dos contadores de estórias. Meryl Streep, aqui novamente nomeada para um Oscar, cria uma personagem matriarcal, carregada de cinismo, manipuladora e capaz dos ataques mais ferozes bem como de momentos de uma fragilidade constrangedora. Julia Roberts, que interpreta uma das suas filhas, tem um desafio enorme, o da contracenar com Meryl Streep e raras são as vezes que consegue roubar-lhe a cena. Alias, só quando está em cena sem a forte presença de Streep é que tem os seus melhores momentos. Uma das surpresas neste fantástico elenco é Benedict Cumberbatch, que tem um papel bem diferente dos personagens dominadores com que estamos habituados a vê-lo. É de sublinhar que o elenco tem sido nomeado enquanto um todo para vários prémios.

O texto de Tracy Letts que dá base ao filme é originalmente uma peça de teatro que foi reconhecida com a atribuição do Pulitzer para melhor texto dramático e o Tony para melhor texto original – ambos em 2008. O realizador apostou no dramaturgo para assegurar a adaptação para cinema e o resultado é um filme com personagens ricas e muito bem definidas, para além dos diálogos fortes. No entanto, a história em si é algo evidente, não existem aqui surpresas maiores e certos acontecimentos são antecipados pelo espectador.

Um filme com o foco no poder da família enquanto elemento formador da nossa personalidade, esta hierarquia inicial que todos conhecemos e a forma como ela evolui e nos envolve.

O melhor: Meryl Streep, vê-la é uma masterclass na arte de representar. E a qualidade do elenco como um todo.
O Pior: A narrativa não surpreende e os twists da história são previsíveis.


Dias Martin

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