A pobreza, a superstição, os traumas e resquícios da guerra são as grandes forças de The Rocket, uma produção australiana que se revela igualmente um sensível crowd pleaser pleno de entretenimento, sem nunca abdicar de um tom intimo e pessoal de uma história coming of age sobre um rapaz de 10 anos que é marginalizado pelo facto de ser gémeo de um nado morto.
Devido à morte do irmão, o jovem Ahlo (Sitthiphon ‘Ki’ Disamoe) é imediatamente catalogado como portador de uma maldição, o que leva a que se pondere a sua morte. Porém, a sua mãe não deixa que esse seja o destino do recém-nascido, implorando para que se omita a questão dos gémeos perante o pai, assumindo-se assim que ela teve apenas uma criança.
Os anos passam e Ahlo brinca numa imensidão de paisagens virgens mas em risco. O governo, associado a uma hidroeléctrica, planeiam a construção de uma barragem, o que irá deixar aldeias submersas, sendo assim imposto uma mudança de habitação. É nessa mudança que um evento trágico vai suceder, renascendo a ideia que o rapaz está mesmo amaldiçoado e que toda a sucessão de eventos negativos que assolam a família é da sua responsabilidade.
Partimos depois para uma aventura em busca de respostas e de luta contra a descriminação, mas tudo muito fluido e pouco melodramático (ou chorão), preferindo o realizador, Kim Mordaunt fazer antes uma biografia de um país pobre e repleto ainda de disparidades sociais, pobreza extrema e traumas da guerra (é frequente as personagens encontrarem obuses), que se refugia nas tradições dado não ter grandes esperanças com o futuro. Pelo meio ainda vamos conhecendo algumas personagens hilariantes, como um antigo combatente que usa como imagem de marca o cantor James Brown, ele próprio um marginalizado pela forma não convencional de agir (mais tarde viremos a saber que essa marginalização também sucede por este ser um antigo combatente do lado americano do conflito).
No todo, este é assim um filme bem construído, com uma grande dose de não atores a assumirem papéis dinâmicos e com multicamadas. A isto acresce uma cinematografia cuidada que é capaz de transmitir o lado virgem (e também o condenado) do território, e um ligeiro tom politico na forma como o capitalismo se sobrepõe sempre aos idealismos. Todos estes elementos criam uma experiência agradável de assistir e a um dos melhores exemplos recentes daquele velho formato de histórias onde alguém acaba por triunfar contra todas as adversidades.
O Melhor: Tem suficiente profundidade para além do típico filme de entretenimento e levantar a moral.
O Pior: Sacrifica algum realismo no final com o seu culminar em modo “conto de fadas”

Jorge Pereira

