De boas intenções está o inferno cheio e normalmente nos festivais de cinema encontramos muitos trabalhos que primam por evidenciar boas ideias e influências, mas más execuções e uma pobreza técnica ou narrativa desesperante (normalmente na forma de curtas metragens enfiadas na duração de uma longa). Infelizmente, “The First Winter” é muito pobre nos resultados, ainda que nas tais intenções e ideias até trilhe por bons arquétipos.
Roberto (Robert Vilar) é um português que vive com o pai. O seu dia a dia varia entre o entregar jornais/revistas ao domicilio e o trabalho de DJ num bar. Foi aí que conheceu Sophie (Eve Majzels), uma turista canadiana que engravidou. Nós sabemos que ela está gravida pois assistimos a um telefonema entre ela e Roberto, onde simplesmente o chama de otário e “agradece” enfurecida pela gravidez. Este fica entre a perplexidade e a obrigação de agir no apoio à mulher que vai dar à luz, começando a remoer a hipótese de deixar Portugal e seguir para o Canadá. É então que vende o seu equipamento (Galo de Barcelos não incluído), pede de volta algum dinheiro que emprestou, guarda o casaco que um amigo lhe oferece e parte para Winnipeg, uma cidade canadiana caraterizada pela brutalidade climática.
Nessa construção e transição, tudo é carregado de simbolismos, seja através de um clichético Galo de Barcelos que Roberto decide não vender, seja através dos negros pés do amigo que já se “escaldou” na neve, o teste de gravidez, os panfletos com opções para abortar e principalmente o mapa mundo ao lado do sofá onde Roberto pensa no que fazer da vida.
“The First Winter” procura assim relatar o primeiro Inverno do português que abandona o seu quente e belo país e parte para um local completamente diferente, sofrendo depois com os contrastes, físicos (clima) e humanos (civilização).
Há um par de boas ideias por aqui e não há dúvida que encontramos no cineasta alguns tiques do início de carreira de Aki Kaurismaki, Jim Jarmusch e até o lado mais gélido das personagens, entre a simplicidade e a excentricidade, dos Coen.
Porém, este é um filme muito pobre em todos os aspetos, a começar por questões geográficas (há imagens entre Lisboa e o Porto sem grande definição), passando por atuações sofríveis na interpretação em português (faltou trabalho de casa) e redundâncias no desenvolvimento da narrativa, que no último terço repete-se sem grande imprevisibilidade. E se Vilar até consegue com a sua expressiva inexpressividade atingir algum dramatismo, é também verdade que a maioria da obra é demasiado penosa e faz-nos rir demasiadas vezes de forma inadvertida.
Com isto, Ryan McKenna mostra que é um cineasta que até podemos ter de seguir no futuro mas para isso terá de crescer muito em todos os aspetos da sua direção e escrita, que neste caso específico ficou muito longe do aceitável.
O Melhor: A expressiva inexpressividade de Robert Vilar
O Pior: É um filme essencialmente muito pobre na concretização

Jorge Pereira

