A relação do homem com a natureza nunca foi pacífica e a literatura, a pintura, o teatro, a TV ou o cinema já apresentaram milhares de trabalhos em torno desta questão. A isto somam-se ainda uma mão cheia de obras sobre a forma como os caçadores (muitas vezes obcecados com as presas) influem no balanço do sistema global e pessoal, provocando assim reações em cadeia num conjunto de pessoas e neles próprios.
“The Hunter” (O Caçador: Último Tigre da Tasmânia) segue as duas vias, acrescentado ainda uma dose de dramatismo familiar através de personagens secundárias e alguns jogos de economia local em que a dualidade “Preservar a natureza Vs Proteger o emprego e a economia” volta a ser tema.
Martin (Willem Dafoe) é um profissional contratado por uma empresa amoral para encontrar, perseguir e matar um Tigre da Tasmânia, uma espécie de que se diz extinta desde o principio do século passado, mas da qual há registso de poder ainda existir numa região remota na Austrália. Chegado ao local, as coisas tornam-se complicadas de gerir. Primeiro porque no local onde iria estabelecer a sua base (uma casa à beira da zona de estudo) encontra apenas duas crianças entregues a si mesmo e uma mulher deprimida e fortemente sedada – que tarda uns dias a levantar-se da cama e surgir em cena. Para piorar, as crianças não lhe dão descanso (ambas anseiam pelo regresso do pai que desapareceu sem deixar rasto), enquanto os locais – furiosos pela ausência de emprego na região devido a proteções ambientais – veem (erroneamente) em Martin mais um ambientalista que lhes vai limitar o crescimento económico da região e consequentemente impedi-los de terem um emprego.
É nesta palete com inúmeras camadas (o caçador implacável em busca da presa na forma de thriller, o drama familiar, ambiental e até económico) que o filme se movimenta, conseguindo o realizador Daniel Nettheim boas sequências, planos e uma atmosfera densa a espaços (entre o desconhecido, o perigo e o extremamente belo) e alguns constrangimento emocionais que fazem a personagem de Martin vacilar.
Porém, e apesar de Willem Dafoe fazer bem o papel de um homem solitário a que cada vez são entregues mais missões (sobreviver aos ataques dos locais, caçar o tigre, encontrar o pai das crianças e dar uma nova vida a esta família), o filme nunca sai de caminhos seguros na concretização e desenlace, sendo particularmente displicente e tímido quando a tragédia se abate sobre a história.
Assim, e apesar de «O Caçador» ter méritos, parece sempre ter demasiados pontos na agenda para um filme só, acabando essencialmente por não aprofundar nenhum deles nem ser engenhoso nas conclusões.
O Melhor: Willem Dafoe e as paisagens
O Pior: Demasiados pontos na agenda para um filme só, acabando essencialmente por não aprofundar nenhum deles e ser mesmo negligente

Jorge Pereira

