BAFICI’13: “La Paz” por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

A forma como os indivíduos lidam com a vida após frequentarem centros de reabilitação, sejam estes psiquiátricos, policiais (reformatórios) ou ligados à dependência das drogas, tem estado muito presente nos últimos anos na cinematografia mundial, seja na Noruega onde Joachim Trier produziu o brilhante “Oslo, 31 de Agosto”, na Alemanha onde Lars-Gunnar Lotz criou “Shifting the Blame”, na Aústria (em “Atmen”), ou na própria Argentina, onde há dois anos Carlos Sorín colocava um cadáver num enorme congelador como resultado de uma crise psicótica que se julgava curada por um desses centros (“El gato desaparece”). Neste “La Paz” não sabemos bem o que aconteceu a Liso (Lisandro Rodríguez), um rapaz que sai de um centro psiquiátrico por razões que presumimos graves mas nunca aprofundadas, embora constantemente faladas.

O seu retorno à vida normal revela que nem toda a gente que abandona instituições médicas sai com vida. E não falamos em termos físicos, pois aí o nosso protagonista parece estar em perfeita forma, demonstrando-o nas longas caminhadas, nos passeios de moto ou no sexo com amigas coloridas ou prostitutas. Na verdade, parece que Liso saiu da instituição desprovido de vida, como que morto psicologicamente e entregue à sua família burguesa onde nitidamente (e especialmente no lado maternal) há um sentido protetor, alguma dose de impaciência (por parte do pai), mas também compreensão (a empregada doméstica).

Curiosamente, para definir Liso não se aplica bem a expressão à procura de si mesmo, e o que a personagem principal parece que deseja é fugir dele próprio, do estado amorfo e depressivo, do ambiente castrador familiar, ainda que como seria de esperar não o procure nem pareça reunir forças para o conseguir. A única paz que parece que encontra é junto da avó, alguém que estima e que parece ser a única pessoa que não o questiona de nada, nem o faça ver e crer que todos no mundo tenham de fazer algo, ter algum gosto ou desejo.

Santiago Loza, o realizador (responsável por filmes como “Cuatro mujeres descalzas”,”Ártico” e “Los Labios”), trabalha a sua narrativa através de vinhetas (que culminam com a “La Paz” que o protagonista tanto anseia). Nesses segmentos (O Jardim, A Moto, Flores, O Tempo, Os Filhos, etc), Loza vai apresentando um Liso mais alienado que presente, sendo também introduzidas e abandonadas personagens que parecem que existem apenas e só para nos focarmos ainda mais no nosso protagonista e no seu mundo.

A verdade é que tudo isto surge num modelo de boa construção cinematográfica e embora toda a narrativa se centre num homem psicologicamente arruinado, isso não implica necessariamente que se desconstrua a personagem e que se procure chegar à sua essência. Ao invés, o que aqui se faz é pacientemente criar uma personagem e sempre com pistas que lançam mais questões que respostas (o que é que Liso teve realmente? Que fez ele à namorada?).

No todo, este é assim um filme bem executado e onde a aparente desorientação da personagem e o seu estado de espirito é transportada para o espectador sem nunca forçar ou manipular essa interação, mas de um forma ligeira e desnorteada, como se Loza apenas nos guiasse pela narrativa sem julgar e tomar partidos.

O Melhor: O estado da personagem principal dá o mote ao ambiente de cada um dos segmentos. Neste caso específico, isso funciona plenamente.
O Pior: Torna-se um pouco repetitivo no último terço


Jorge Pereira

Últimas