IndieLisboa’13: “Workers” por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

É manifestamente impressionante este “Workers”, a primeira longa metragem do Salvadorenho, formado no México, José Luis Valle. Seguindo um linha minimalista, lenta no passo e muitas vezes contemplativa, a obra acompanha  a história de dois trabalhadores com um passado comum marcado pela perseverança e tragédia. Rafael (Jesus Padilla) é um Salvadoranho que se quedou pelo México após fracassar na sua travessia até aos EUA. Enganado pelos norte-americanos, que lhe prometeram a cidadania se combatesse no Vietname, este homem sofreu ainda, quando estava na Guerra, com a morte do filho. Agora, e depois de 30 anos de trabalho, sem nunca ter tirado férias e sem se ausentar por doença, Rafel pensa na reforma, deslocando-se ao escritório do supervisor para a pedir. Aí descobre que não existem registos da data certa da sua entrada na empresa e que terá de continuar a trabalhar, até porque o seu patrão diz que se o fizer não avisa os serviços de emigração sobre o seu estatuto de ilegal no país.

Paralelamente, vamos conhecendo também a história de Lidia (Susan Salazar), uma espécie de governanta que trabalha para uma viúva (Vera Talaia) que tem como a sua única alegria na vida uma cadela, carinhosamente apelidada de Princesa.

Será por um período de 10 anos, a começar em 1999, que vamos ver a vida destas duas personagens – cujas pistas lançadas nos levam à noção que já foram casados. Porém, esta década não é apresentada de maneira muito extensa. Ao invés, Valle prefere mostrar dois pontos separados por 10 anos, acompanhando a rotineira vida de Rafael, cujo único ponto alto parecem ser as aulas num parque com um miúdo que o ensina a escrever. A forma humilde como vive (num parque de roulotes), demonstra bem a pobreza em que se insere. Já a vida de Lídia é de uma empregada de gente rica e divide o seu tempo entre tratar da sua patroa, preparar a comida e levar a passear  (nunca a lugares sujos ou pobres de uma Tijuana feia que doi), e a conviver com os restantes trabalhadores da mansão (alguns deles com pormenores interessantes da sua vida pessoal e passado).

Na verdade, e para além de seguir duas personagens rotinadas com a vida (como quase toda a classe trabalhadora), Valle demonstra bem as diferenças sociais e económicas num México soterrado de notícias e guerras sobre gangues do narcotráfico. No meio disto surge a mão-de-obra, cada um não recebendo o valor que merece e o respeito após anos de dedicação. Se Rafael começa aos poucos a provocar danos imperceptíveis na sua empresa, já Lídia inicia um processo de aos poucos matar a cadela – que entretanto herdara toda a fortuna que a sua falecida dona deixou.

Tudo isto é feito com  pulso por parte do realizador, que tem o cuidado de fugir daquele cinema “espertinho” e negro que o enredo parece por vezes querer tocar. Em vez disso, Valle prefere contar a sua história e estudar as suas personagens de forma muito paciente, com atenção ao detalhe e onde os planos, ângulos e sons parecem ter sido estudados à exaustão para obter o quadro perfeito e um álbum fotográfico/cinematográfico que retrate quem neles se insere.

O resultado é assim um belíssimo filme que mostra muito mais do que aparenta e um estudo pleno de oportunidade de um espaço (Tijuana), pessoas e dicotomias sem a necessidade de ser explicito ou recorrer ao cliché do cinema narcotráfico e “gringo” para o efeito.

O Melhor: Todos os planos e angulos deste filme foram estudados ao ínfimo pormenor
O Pior: O formalismo intransigente tem os seus pecados e limitações.

Jorge Pereira

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