Deliberadamente lento, meticuloso e minimalista, a estreia do realizador Ali Aydin demonstra uma das maiores forças do cinema turco atual, que é a capacidade de contar histórias de pessoas profundamente comuns mas que na desconstrução das suas personagens e consciências transbordam camadas e camadas de complexidades.
Basri (Ercan Kesal) é o típico viúvo quase na reforma que vive a sua rotineira vida sem levantar grandes problemas. Teoricamente é aquela pessoa que sabemos que existe, mas que não dá notícias, nem por bons, nem maus motivos. A sua forma de ser, trabalhadora e apolítica, permite que tenha uma vida pacífica e recatada aos olhos dos outros, ainda que saibamos que por dentro é constantemente corroído pelo desaparecimento do filho há 18 anos. E embora envie sucessivamente cartas às autoridades a questionar as investigações, desconfiamos que tantos anos depois dificilmente existirão novidades sobre o processo. Ou seja, Basri sabe das dificuldades, mas nunca desiste dessa querela, como se fosse a sua razão de viver.
É nessa rotina pessoal e psicológica de Basri que Ali Aydin se apoia para nos contar pequenos eventos, interações e relacionamentos, ainda que nunca se fixe e aprofunde em demasia qualquer história particular (sabemos pouco sobre a sua aparente epilepsia, por exemplo). Na essência, o que parece interessar ao realizador é acompanhar o homem comum, recluso e refém da sua tragédia e consciência, e que tenta alcançar, de uma forma paciente, dócil e respeitadora, uma conclusão para o caso do filho, nem que seja para seguir com a sua vida, ainda que não se saiba bem para onde.
Sem nunca nos aborrecer neste seu estudo da personagem, apesar do ritmo lento afastar uma audiência mais vasta, Aydin vai assim mostrando eficazmente uma história atmosférica e que carrega muita da sua força na prestação de Ercan Kesal – que se mostra perfeitamente à altura do exigido. Apoiado por uma clara preferência numa espécie de austeridade de movimentos da câmara, que acentua o minimalismo de processos, Aydin demonstra também pulso e toda a contenção que a sua personagem e história necessitava, carimbando assim o seu início de carreira com um sucesso que nos deixará bastante atentos ao seu futuro.
O Melhor: Basri é uma personagem martirizada, profunda mas nunca o espectador o vitimiza
O Pior: Nada em particular a apontar

Jorge Pereira

