«Lincoln» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)
 
Um dos maiores problemas das cinebiografias atuais é, genericamente, transformarem os visados em pouco mais que ícones, como se estivessem num pedestal e o cineasta – o humilde dos mortais – tivesse de se subjugar ao serviço duma espécie de marketing histórico que é transformado em facto indesmentível a transmitir a futuras gerações. Se esta situação é frequente em jovens realizadores, que têm de agradar a produtores e estúdios de maneira a não pisarem os calos a quem lhes deu a oportunidade, no caso de Steven Spielberg, isso acaba por ser desapontante.
 
Convém aqui frisar que não coloco o cineasta americano num pedestal, mas reconheço a qualidade do seu trabalho, particularmente na criação de sonhos verdadeiramente mágicos com que preencheu o cinema nos anos 70, 80 e até 90. O Spielberg da aventura, sempre regada como muita ação, comédia e até terror, era arrojado e inconformado, mesmo que isso lhe trouxesse dissabores (como as criticas que recebeu aquando do último Indiana Jones). Porém, há um outro Spielberg, o das obras baseadas em factos verídicos ou personagens históricas que, estranhamente, se contém e joga demasiado pelo seguro, sempre arrastando a sua assinatura cinematográfica num tom de épico forçado, onde não falta a tentação pela lágrima fácil. A sua única variação, ou «desvario» formal neste género, foi o injustamente tratado como menor «Munique». Neste filme, talvez pelo excesso de pressões disparadas de todos os quadrantes, e por saber que nunca iria agradar a gregos e troianos, Spielberg soltou-se e carregou os seus «factos» com interpretações e emoções contraditórias que trouxeram tensão e interesse por mais de duas horas.
 
Pelo contrário, em «Lincoln», e tal como já tinha sucedido com o banal «Cavalo de Guerra» (ainda que por diferentes razões), Spielberg volta a desiludir, não só porque cai no erro de retratar um pedaço da história demasiado preso «aos livros», mas principalmente porque não consegue humanizar o seu presidente para além de um herói e ícone de uma nação. E mesmo quando recorre a alguns segmentos em que coloca Lincoln com a família, estes são demasiado superficiais, preferindo-se antes seguir a história do político (e das politicas), onde não faltam as frases feitas, as histórias de vida com uma moral por trás e uma coleção de personagens/nomes e datas que nos sufocam com informação. Com isto, e por culpa especialmente do seu desinteressante argumento, «Lincoln» acaba por falhar, onde só os atores – com destaque para Daniel Day Lewis e Tommy Lee Jones – conseguem “abanar o sistema» com a sua entrega e talento, ainda que muitas vezes sejam sufocados por tanta rigidez e frigidez emocional. Veja-se o caso de Joseph Gordon-Lewitt, destratado numa personagem que podia ter grande interesse, mas que aqui surge como um superficial retrato da masculinidade, dos valores e do patriotismo da época, apenas e só para mostrar um pequeno conflito familiar. John Hawkes é outro dos desperdiçados…
 
Como estocada final soma-se um último ato já visto e revisto, até no próprio cinema de Spielberg, numa quase repetição do tribunal de «Amistad», onde o «Give Us, Us Free» é substituído pela contagem de votos que decreta a abolição da escravatura (não é spoiler, é história).
 
No todo, e em jeito de conclusão, a sensação generalizada deste «Lincoln» é de desolação, não só pelo que vimos, mas porque principalmente sabemos que com os talentos envolvidos seria de esperar muito mais e melhor.
 
O Melhor: Daniel Day-Lewis
O Pior: A rigidez formal e a frigidez emocional
 
 
 Jorge Pereira
 
 

Últimas