«Silver Linings Playbook» (Guia para um Final Feliz) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Depois de um retrato pálido, cliché, chorão e bastante sobrevalorizado com «The Fighter – Último Round», David O’ Russel regressa ao cinema com uma comédia dramática cheia de energia e humor que cativa e entusiasma o publico, sem nunca cair no erro de vitimizar as suas personagens.

Pat (Bradley Cooper) é um bipolar obcecado com a esposa que, após um episódio violento, é colocado num hospício, ganhando com isso – também – uma ordem do tribunal para nem sequer se aproximar dela. Quando sai da instituição, Pat regressa a casa dos pais (Robert de Niro e Jacki Weaver), mantendo sempre viva a ideia que vai voltar a reunir-se com a sua esposa. É no meio de algumas trapalhadas e através de personagens secundárias que o homem se vai cruzar com Tiffany (Jennifer Lawrence), uma recém-viúva desempregada com problemas muito próprios e um sentimento de «Fucked Up» carimbado na testa. A verdade é que entre os dois nasce uma empatia e uma entreajuda em sarar as feridas um do outro, ainda que como desculpa para essa aproximação esteja em jogo uma carta e um concurso de dança.

Com bastante humor, uma grande dose de referências pop (da musica ao desporto, passando pelo cinema e literatura) e boas interpretações, O. Russell cria uma obra plena de pulmões que constantemente expira diálogos e situações plenas de oportunidade e interesse, conquistando assim a nossa atenção constante e ritmada, sem nunca cair em excessos narrativos ou em momentos de overacting. Para isto muito contribui a prestação de todo o elenco, destacando-se ainda assim Jennifer Lawrence e, principalmente, Bradley Cooper – aqui muito longe dos registos que o tornaram famoso (A Ressaca). Se é verdade que o ator entra aos solavancos na pele de uma personagem destroçada e em negação constante, também é certo que agarra o papel de caras e encerra o filme com aquela que é a sua melhor interpretação no cinema até hoje. Já Lawrence mostra mais uma vez as suas capacidades dramáticas (e desta vez sem sacrificar qualquer esquilo), dando vida a uma mulher frágil coberta numa máscara neo gótica de sedução ninfómana. E note-se uma coisa. Mais importante que existirem duas boas interpretações individuais, o que aqui mais fascina é a verdadeira química entre estes dois atores, quer nas suas fragilidades e silêncios, quer nos momentos em que raiva domina os seus estados ou mesmo quando o humor transgride o bom gosto. A eles acrescente-se Weaver e De Niro, seguros nos seus papéis de pais compreensivos mas também com problemas e desilusões, e um Chris Tucker irreconhecível, que regressa num papel demasiado pequeno para o que é capaz.

Com tudo isto, e sempre bem apoiado por um argumento muito acima da média, O’ Russel cria uma obra bastante coesa, tão divertida como dramática, que nem o final (felizmente) açucarado abala. 

O melhor: As interpretações gerais do elenco
O pior: Alguns excessos nas personagens secundárias dão um tom demasiado caricatural a algumas cenas
 
 
 Jorge Pereira

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