«Your Sister’s Sister» (Entre Irmãs) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

As comédias românticas e as tragicomédias americanas (especialmente no cinema de Hollywood) apresentam nos últimos anos uma tal estupidificação dos seus enredos que, cada vez que aparece algo diferente ou não estupidificante, é invariavelmente sobrevalorizado. O facto deste nivelamento por baixo dos conteúdos, levou assim a que produtos cinematográficos – outrora medianos – sejam agora elevados a patamares de qualidade superior, algo que acontece um pouco com este «Entre Irmãs», o novo filme de Lynn Shelton (Humpday), uma obra que marca uma nova colaboração da cineasta com o argumentista, realizador e nesta caso também ator Mark Duplass
 
Neste filho do cinema independente americano – com passagens de sucesso pelos Festivais de Toronto e Sundance – Shelton cria uma trapalhada romântica que coloca frente a frente duas irmãs (Emily Blunt e Rosemarie DeWitt) e um homem marcado pelo falecimento recente do irmão (Duplass). Tudo começa com Jack (Duplass) a aceitar o convite de Iris (Blunt) para passar uns dias numa cabana na montanha para repensar a sua vida e lidar com o luto. Quando chega à cabana, Jack dá de caras com Hannah (DeWitt), uma mulher marcada pelo fim do relacionamento de sete anos com a sua namorada. Enquanto os dois se conhecem, e vão bebendo uns copos, o impensável ocorre. Hannah e Jack têm sexo, e toda a situação se torna mais complicada e “complexa” de gerir quando no dia a seguir Iris vai também para a cabana. 
 
O filme embarca então num jogo de omissões, onde naturalmente sabemos que caso a verdade comece a surgir, tudo irá mudar. Mais que orientado pela história (que se resume a duas mulheres e um homem vão para uma cabana), a fita vive das suas personagens, e é em torno do estudo a estas e aos seus diálogos que o filme carbura – algo típico no mumblecore, onde o yada yada yada naturalístico é que nos mantém atentos e divertidos. 
 
A química entre as três personagens podia ser melhor, ainda que no caso das irmãs isso surja como algo verdadeiramente natural e de louvar (embora cada uma tenha o seu sotaque distinto). Nisto, realce para a prestação de DeWitt, claramente a personagem mais interessante, até pelo seu sarcasmo inicial. Pena é que esta também se apague à medida que a objetiva teima em transformar o filme num manual romântico para gente moderna “forçada” em ter mais medo de relações (ou de estragar tudo) do que de um ataque nuclear. Blunt também está bem, especialmente quando lado a lado com DeWitt, enquanto Duplass cumpre sem grande chama ou fascínio uma personagem típica da cinematografia independente atual– a do trintão sem grandes objetivos de vida, com alto cariz autodepreciativo e por vezes neurótico.
 
Com tudo isto, e no seu todo, «Entre Irmãs» é uma obra agradável de assistir, mas sem verdadeiramente atingir um patamar elevado dentro do seu género, ou algo que a torne verdadeiramente inesquecível. 
O Melhor: Rosemarie DeWitt
O Pior: A generosa injecção de sacarina no enredo no último terço
 
 
 Jorge Pereira
 

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