«On The Road» (Pela Estrada Fora) por Sara Sousa

(Fotos: Divulgação)

Anos 40, Nova Iorque: nascia a geração Beat. Os seus membros, intelectuais aspirantes a escritores, estavam fartos da monotonia do mainstream e queriam procurar uma nova forma de vida, mais real e crua. Através dos seus livros, acabaram por criar uma revolução cultural, regada com jazz frenético, drogas e álcool. Uma das obras mais famosas produzidas pelo movimento é o icónico “Pela Estrada Fora”, da autoria de um dos Beats mais influentes: Jack Kerouac.

A história começa quando Sal Paradise (Sam Riley), um jovem aspirante a escritor e natural de Nova Iorque, conhece o selvagem e imprevisível Dean Moriarty (Garrett Hedlund), que se acompanha pela sua libertária mulher, Marylou (Kristen Stewart). Os dois rapidamente criam uma ligação e partem numa road trip pela América do Norte. 
 
Os três jovens iniciam – encontrando muitas pessoas interessantes pelo caminho – uma procura pelo mundo, por novas experiências e por si próprios.

Algo que se destaca logo desde o princípio do filme é a beleza das imagens: a cinematografia e a composição dos planos são excelentes. Walter Salles sabe aproveitar e permear com acutilância as paisagens da América rural, os concertos de jazz e os detalhes deliciosos da época. (É, aliás, feito um retrato muito cuidado e – segundo se diz – rigoroso dos anos 40.)

As performances do vasto (e de alta categoria) elenco são outro aspecto positivo de “Pela Estrada Fora”. A começar por Garrett Hedlund, que revela enorme promessa e faz jus ao memorável, larger-than-life Dean Moriarty. Sam Riley também é adequado – embora não brilhe tanto –, interpretando o narrador Sal que é, na verdade, o substituto literário de Jack Kerouac. Quanto a Kristen Stewart (aquela de que todos querem saber): dá uma performance razoável, que poderá surpreender aqueles que apenas a viram na saga “Crepúsculo”. E depois temos uma série de cameos e papéis secundários muito interessantes interpretados por atores como Viggo Mortensen, Amy Adams, Steve Buscemi e Tom Sturridge.
 
Outra personagem que não pode ser esquecida é o jazz: tão importante para a geração Beat e, naturalmente (felizmente), para este filme. Salles espalha-o por toda a película e filma com entusiasmo os vários concertos de jazz e cenas de dança frenéticas. 

Mas nem tudo é bom: o ritmo e a estrutura são algo inconsistentes, sem dúvida resultados de falhas no guião. De facto, Salles terá tido dificuldade em filmar esta adaptação (tarefa que muitos já tinham considerado impossível) e isso nota-se. 
 
“Pela Estrada Fora” precisava de mais rapidez, de ser menos repetitivo e menos contido – e menos longo: o filme começa a arrastar-se na última meia hora, sendo possível pressentir um quase desespero do realizador ao tentar “enfiar” o resto da história no tempo que lhe resta. E, muito importante, convinha também a “Pela Estrada Fora” ser menos convencional. Kerouac não o foi, na altura em que escreveu a sua obra-prima, nem o devia ter sido Walter Salles.
 
Poder-se-á, até, afirmar que Salles não é suficientemente talentoso para se ter aventurado na complicada tarefa que foi adaptar “Pela Estrada Fora” ao grande ecrã.

Apesar de, no fim, deixar um pouco a desejar, não é de todo um mau filme, sendo capaz de entreter e mesmo inspirar, e não deverá ser um completo desapontamento para a maioria dos que leram o livro.

O melhor: a performance de Garrett Hedlund, a cinematografia e a banda sonora.
O pior: a estrutura narrativa, o tempo de duração demasiado longo e a ausência da ‘alma’ do livro.
 
 
 Sara Sousa
 

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