«Detachment» (O Substituto) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

O começo de “O Substituto” é bastante enganador: o professor Henry Barthes (Adrien Brody) entra numa escola com gravíssimos problemas de disciplina, frequentada por alunos vindos de bairros degradados, para substituir um colega. É “calorosamente” recebido por seus pupilos com insultos verbais e atos de indisciplina à beira da agressão física; com palavras, no entanto, ele começa a contornar a situação…
 
 
A partir daí, parece que teremos um daqueles tantos filmes que revelam um professor sensível e genial que consegue resgatar da iniquidade um bando de adolescentes sem rumo. Nada disto: “O Substituto” é um retrato do caos – uma obra plena de sentimentos de falhanço, desespero, solidão e onde a sombra do suicídio espreita a cada canto. 

Uma montagem ágil e um filme dinâmico, que utiliza recursos visuais e linguísticos variados, estão a serviço de um retrato arrasador do sistema educacional norte-americano (e de todo o Ocidente, provavelmente). O que se encontra aqui são professores moralmente falidos (a despeito da luta corajosa de alguns deles), uma escola institucionalmente em crise e, num âmbito mais geral, o reflexo de uma sociedade ela mesma sem saber para onde ir, representada por alunos completamente à deriva – uma geração sem mitos, sem ideais, sem ambição e sem rumo. E sobre esse vazio paira o totalitarismo – conforme relaciona as imagens de Hitler e o termo “duplipensar”, que numa aula o professor vai buscar ao clássico distópico “1984”, de George Orwell.

Retrato social intercalado com drama pessoal: o título original do filme, “Detachment” (“Indiferença”) só de forma irónica está ligado ao atormentado protagonista. Apesar da sua tentativa de alhear-se do que vê, Barthes acaba por ser seguidamente confrontado (pela menina que se prostituía e que ele tira das ruas, pela aluna desesperada que procura nele conforto, pelo avô senil e moribundo) com situações que exigem dele aquilo que ele gostaria de não poder oferecer: uma enorme dose de humanidade e compaixão – valores inadequados para a sobrevivência num mundo tomado pela barbárie.

Tony Kaye é o realizador do igualmente intenso “América Proibida”, que aqui sobe uns quantos degraus ao não sucumbir a certos maniqueísmos e moralismos politicamente corretos do seu filme mais famoso. Tal como Edward Norton naquele filme, Adrien Brody tem aqui uma personagem com uma riqueza dramática extraordinária, que lhe permitem um grande desempenho. 

Por vezes é excessivamente sombrio na sua exposição, mas de enorme eficácia ao obter o clima que pretende É claro que esse ambiente de desespero é mais funcional e realista para uma trajetória individual do que como um panorama mais globalizante – pois é evidente que nem toda a sociedade ou o seu sistema institucional atingiu tamanho fundo de poço. 

Encerra com a leitura de um trecho de “A Queda da Casa de Usher”, de Edgar Allan Poe, onde associa toda a beleza da literatura à sua ligação nada abstrata com o mundo em que vivemos. E o que se está a dizer é: o Ocidente está degradado como uma casa em ruínas. Um filme brutal, diante do qual a indiferença é totalmente impossível. 

O Melhor: Adrien Brody e o ambiente do filme, alcançado com enorme eficácia
O Pior: como retrato social acaba por ser inevitavelmente unilateral
 
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 Roni Nunes
 

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