«Deste Lado da Ressurreição» por Nuno Miguel Pereira

(Fotos: Divulgação)

Rafael (Pedro Sousa) é um jovem que deixou tudo e decidiu tornar-se monge, indo para um convento. No entanto, vive angustiado e oscila entre a sua total devoção pela religião e a vontade de voltar a surfar no mar do guincho e de estar com a irmã Inês (Joana Barata). O início do filme centra-se na volta do Rafael à praia do guincho, ainda que sem dizer nada a ninguém. É nesse momento que a irmã vê a sua caravana e, mais tarde, o reencontra. No meio disto tudo, temos uma mãe (Sofia Grilo) que pensa que o seu filho enlouqueceu e que vive atormentada pela sua ausência. Para além desta história, temos também uma outra narrativa secundária, e com pouquíssimo relevo, em que é abordada a vida estudantil e amorosa de Inês.
 
Isto é o que precisam de saber sobre o filme, mas que no fundo acaba por não ser importante. Esta obra procura ser um tratado aos sentidos, tenta ser um quadro e obrigar-nos a refletir e a viver as angústias dos personagens. A verdade é que esta tentativa de transformar o filme numa tela, acaba por matar a narrativa. Quanto ao diálogo (in) existente, acaba por não fazer grande sentido, com excepção feita às cenas em que a Inês conversa com a mãe. Na verdade o filme é uma tentativa de ser muita coisa, mas acaba por não ter grande substância. 
 
Se no início os planos contemplativos existentes, que focam o belo mar do guincho, nos permitem desfrutar da imagem e refletir sobre a angústia da personagem. A verdade é que isso rapidamente se altera. Ao fim de meia hora, com os planos a tornarem-se mais preguiçosos do que contemplativos, o nosso pensamento foge dali para fora. Se as sequências lentas e o ritmo quase inexistente, permitiam absorver e pensar sobre o filme, a meio eu só conseguia pensar no que iria fazer para o almoço e quanto tempo faltava para aquilo acabar. Estas quase duas horas de cinema poder-se-iam resumir numa curta-metragem de 20 minutos. 
 
Depois, e para piorar as coisas, cria-se  uma história secundária para dar tempo de antena à jovem Inês. Ainda agora estou a pensar que sentido é que aquela parte tem para o enredo, mas enfim.
 
Chegamos a metade do filme e tudo piora. Agora os planos contemplativos são do convento e aí o realizador tenta forçar ainda mais as referências à pintura. Há dois ou três planos repetidos, com uma vela e um contraste claro/escuro, que são uma nítida referência à obra do pintor barroco Georges de La Tour, mas que mais uma vez, não fazem sentido.
 
Nos últimos 5 minutos do filme há finalmente um desenlace, ainda que fique algo em aberto.  Essa acaba por ser a melhor parte, não por o fim ser incrivelmente ritmado e poético, mas porque significa que o filme acabou.
 
Uma das principais falhas do filme tem que ver com o facto de o protagonista não nos conseguir “vender” as suas emoções. Admito que foi uma atuação esforçada e que pretendia provocar-nos uma reflexão. Por outro lado, até admito que no princípio, antes de ele falar, até refleti um pouco sobre a angústia que ele parecia sentir. O problema foi quando as primeiras palavras saíram da sua boca. Nesse momento percebi que a angústia dele deveria ser por não ter grande jeito para ator (também eu senti angústia nesse momento).
 
Bem, agora que já fui mau o suficiente, chegaram as palavras positivas e de apreço. Não posso deixar de dizer que, no meio deste pretensiosismo, duas atrizes estiveram convincentes. Sempre que a Sofia Grilo e a Joana Barata tinham cenas juntas eu voltava a dar atenção ao filme. Elas mostravam uma grande cumplicidade e eu acreditei nas emoções que elas procuravam transparecer. Acreditei nas lágrimas, nas dúvidas. Destaque especial para a Joana (nova nestas andanças) e que teve uma prestação muito interessante, será uma rapariga para seguir com atenção.
 
Falando na realização do Joaquim Sapinho (Diários da Bósnia), penso que os planos excessivamente contemplativos mataram por completo o ritmo e a narrativa. Às tantas questionei-me se ele tinha deixado a câmara parada e tinha ido passear pela praia, ao ponto de se esquecer dela. Se isso resultou com a praia do guincho, pois o guincho é belo por si mesmo, quando voltou para as filmagens do convento  tornou-se penoso. Para piorar tudo, quando falavam eu tremia de tão maus que eram os diálogos. 
 
Apesar de tudo, preza-se a intenção do Joaquim Sapinho de tentar fazer um tratado sobre a angústia humana e um postal aos sentidos (e ao guincho). Na minha opinião, ficamos pela intenção.
 
O Melhor: Cenas entre a mãe e a filha. A intenção do realizador. O facto de o guincho ser muito bonito e de se filmar por si mesmo.
O Pior: Cenas que não envolvam mãe e filha. A concretização do realizador. O facto de o convento não ser bonito e de não se filmar por si mesmo.
 
 
 Nuno Miguel Pereira

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