
É difícil um filme navegar bem sobre a ténue linha que separa a pura emoção da exploração, mas este «Beasts of The Southern Wild» consegue, chegando a bom porto através de um misto de fantasia, ingenuidade e muito coração, mesmo que algumas personagens o tentem esconder.
Na obra estamos na ilha (fictícia) de Charles Doucet, um local conhecido como a “banheira” e que se inspira em várias comunidades de pescadores isoladas e independentes (na região do Luisiana), ameaçadas pela erosão, furacões e as subidas do nível do mar, especialmente quando ocorrem tempestades. Separados do resto do mundo por um dique, esta comunidade vive de uma forma pobre, miserável diríamos, mas na observação da sua existência não vemos qualquer tristeza da sua condição ou desejo de sair dali. Aliás, o seu maior medo é mesmo que as equipas de evacuação que atuam após as calamidades naturais os forcem a evacuar e os «encerrem» em abrigos.
Contudo, há que dizer que tudo o que vemos neste filme tem uns olhos e uma voz. O mundo que assistimos é observado e percepcionado por Hushpuppy (Quvenzhané Wallis), uma menina que entre a ingenuidade, a imaginação e criatividade nos vai guiando por este mundo tão mágico como destruidor. Com ela, mas numa «casa» separada, vive o pai, Wink (Dwight Henry), um homem obcecado e duro que tenta criar a filha de maneira a que ela possa sobreviver sozinha, nem que para isso seja duro e cruel. Na mente da criança há uma mãe ao longe e da qual ouve falar com eloquência e fantasia por parte do pai, que a conheceu num dia em que estava “tão tímido” que adormeceu (esta estória dentro da estória é uma verdadeira relíquia).
Sem me alongar mais sobre o enredo desta fita, que orgulharia Rousseau, a verdade é que quase tudo nela é absorvente. Desde as paisagens, ao design de produção, passando pelos atores, banda-sonora (arrepiante muitas vezes) e realização. Acima de tudo «Beasts of The Southern Wild» mostra-se um projeto muito sólido e seguro de si mesmo, não tendo nunca medo de por vezes se exceder no carácter infantil e sonhador, ou de usar demasiados simbolismos, especialmente quando liberta os “cruéis Aurochs”, e até mesmo em tocar em teorias conspirativas emergentes pós-Katrina.
Estamos assim perante um dos grandes filmes de 2012, embora não se possa dizer – pelo seu percurso nos festivais – que isso seja uma grande surpresa. Na verdade, isto é cinema independente americano no seu melhor, o mesmo que continua a mostrar o lado mais interior dos EUA ( «Despojos de Inverno», «The Dynamiter») sem cair nos velhos clichés das histórias de perseverança contra todas as contrariedades como um mero chavão ou slogan.
Uma última e honrada nota sobre o trabalho de Benh Zeitlin, um cineasta em estreia e que depois de ter filmado «Glory To The Sea» em 2008 na região de Nova Orleães, se manteve na região e desenvolveu este drama sob o olhar fascinante de uma criança com tanto charme e poder de nos prender que dificilmente a maioria dos espectadores conseguirá aplicar “diques” para segurar as lágrimas…
Imperdível…
O Melhor: Quvenzhané Wallis e Dwight Henry são assombrosos nos seus conflitos
O Pior: Nada a assinalar
| Jorge Pereira |

