Depois de «Escolha Mortal» e «The Road – A Estrada», o australiano John Hillcoat visita a cultura gangster americana na era da Grande Depressão apresentando a história (mais mito, que outra coisa) dos Bondurant, socorrendo-se para isso de «The Wettest County in the World», trabalho literário assinado por Matt Bondurant que, inspirado pelo avô e dois tios, cria um projeto que evoca a irmandade, a ganância e a morte, numa espécie de Era uma Vez na… Virginia.
Os Bondurant eram um gangue que contrabandeou álcool durante a lei seca e que se veem em problemas quando o agente Charlie Rakes (Guy Pearce) começa a apertar com o seu negócio, colocando o seu reinado na região em perigo.
Por um lado, este «Dos Homens sem Lei» (um nome que nos relembra outro tipo de irmandade contra um destino fatal que já vimos nos cinemas, «Dos Homens e dos Deuses») é uma espécie de prequela dos movimentos criminais que mais tarde se tornariam denominados como mafia, sendo a ruralidade do espaço e a força bruta minimalista da ação a sua verdadeira marca pessoal. A ajudar a isto, existe uma clara destreza de Shia LaBeouf, Tom Hardy e Jason Clark em dar vida ao trio de irmãos de forma convincente, o que associado a uma belíssima cinematografia e uma competente banda-sonora tornam «Dos Homens sem Lei» num filme com alguns méritos.
Porém, por diversas vezes fica uma clara sensação de surgirem elementos mais estranhos que a ficção, o que cria uma tremideira narrativa e um olhar desconfiado do espectador. Isso mesmo se vê logo na figura de Charlie Rakes (Guy Pearce), alguém que mais parece saído do universo de um outro filme, ou mesmo de uma outra época, e que funciona mais como uma personagem caricatural e meramente excêntrica do que a um vilão real ou temível. E é curioso que um dos problemas do filme, o desenquadramento desta personagem, surja a partir de um ator com qualidades inegáveis e habituado a trabalhar com Hillcoat: foi ele o protagonista de «Escolha Mortal» (ler critica) e foi ele quem ficou com o pequeno Kodi Smit-McPhee no final de «A Estrada» (ler critica).
Infelizmente, este é apenas um dos vários exemplos de inconstâncias que o filme apresenta (demasiados altos e baixos), não conseguindo Hillcoat manter a coesão e a qualidade dos seus trabalhos anteriores, em especial no que diz respeito ao lirismo laminado pela violência de homens que frequentemente retrocedem a um estado primitivo. Uma última nota para a presença de Jessica Chastain e Mia Wasikowska no elenco. Apesar dos seus papéis serem limitados (mais no caso da segunda do que na primeira), ambas conseguem destacar-se, nem que seja pelo tom discreto (e sensual no caso de Chastain) que transmitem aos espectadores, algo que contrasta com aquilo que os homens oferecem: masculinidade, impulsividade, violência e um tom estoico impróprio de ser vangloriado – como Hillcoat o faz no final.
O Melhor: O trio protagonista, a cinematografia e a banda-sonora
O Pior: Argumento desequilibrado, Guy Pearce desenquadrado e um final de adoração autoimune.
| Jorge Pereira |

