Betty Anne (Hilary Swank) e Kenny Waters (Sam Rockwell) são dois irmãos que não nasceram em berço de ouro e que sempre se apoiaram um no outro. Kenny, o mais velho e também o mais selvagem, “atraia os polícias” como Betty Anne dizia. Essa atracção acabou por ser fatal no momento em que Kenny foi condenado por assassinato em primeiro grau, juntamente com assalto à mão armada. É, fundamentalmente, a partir daqui que a história arranca.
Importa agora referir que este filme foi baseado em factos reais, o que, sendo americano, torna algo previsível o seu desfecho. Se à partida isto poderia ser fatal para o desenrolar do filme, a verdade é que, muito pela capacidade dos atores, permanecemos agarrados à história, sem querer pensar no que vai suceder a seguir.
O argumento acaba por relevar a luta ao longo dos anos de Betty Anne, para provar a inocência do seu irmão mais velho, fazendo por isso (sem querer dar spoilers) os possíveis e impossíveis para o salvar. O que se não me dissessem que era baseado numa história real, eu diria que só nos filmes é que poderia acontecer.
Torna-se quase imprescindível falar da dupla protagonista. Hilary Swank nasceu para fazer este tipo de personagens e este tipo de filmes. Ela luta contra aquilo que acha ser uma injustiça, contra tudo e contra todos, passando por uma montanha russa de emoções e sempre demonstrando genuinidade nessas mesmas. Para mim, uma das melhores atrizes da sua geração. Porém, considero que o nosso amigo Sam Rockwell acaba por ser aquele que rouba as atenções. Com aquele ar estouvado e, ao mesmo tempo, com nuances cómicas, ele é quem se destaca mais. Consegue criar um personagem que cativa, por vezes irrita, mas que queremos ver mais. Sem falar que a química presente neste filme entre estes dois protagonistas é quase palpável (eu digo enquanto irmãos, não pensem outras coisas).
Estas duas interpretações, pela carga dramática e densidade emocional que acarretam, acabam por levar a narrativa quase por completo. Todavia, seria uma injustiça não mencionar os outros actores secundários. Gostei especialmente da personagem da Julliette Lewis, que sem querer desvendar muito, vai surgir sem um dente da frente. Por outro lado, o papel de Minnie Driver enche-me as medidas. Apesar de pequeno, é ela quem consegue desanuviar o clima do filme, conseguindo arrancar alguns sorrisos no meio daquela tensão toda em que o filme se desenvolve.
A realização, a cabo de Tony Goldwyn (O último beijo), não inova, mas é eficaz. Ele vai contando a história recorrendo por vezes a analepses, que se tornam muito importantes para perceber as razões das atitudes das personagens.
Não queria deixar de falar também da banda sonora. Paul Cantelon (O Escafandro e a Borboleta) brinda-nos com uma banda sonora repleta de envolvência, que passa despercebida pela sua simplicidade, mas que se torna mordaz pela sua profundidade. Destaco a última cena do filme, que uns poderão achar algo “lamechas”, mas que eu vejo como uma fusão perfeita entre a imagem e o som.
Por vezes pergunto-me o que será necessário para que as distribuidoras em Portugal, efectivamente, distribuam um filme. Poderá ser desconhecimento da minha parte, por não estar a par de todos os critérios. No entanto, enquanto espectador, foco-me na qualidade e se esse tivesse sido o critério, este filme claramente já teria sido lançado cá, atendendo a que já data de 2010. Mas como diz a outra, “isso agora não interessa nada”. O que interessa é o filme e mais vale tarde do que nunca.
O melhor: A dupla protagonista e as “Pinceladas” da Minnie Driver
O pior: alguma lentidão na primeira metade do filme e a previsibilidade do mesmo.
| Nuno Miguel Pereira |

