Depois de filmes como «Play», o vencedor do IndieLisboa em 2005, e «Turistas» (2009), a chilena Alicia Scherson regressa aos cinemas com de «Il Futuro», adaptação ao cinema do livro de Roberto Bolaño, “Una Novelita Lumpen».
Na obra, e sempre se socorrendo de implantar elementos pop onde menos se espera (não esquecer que Scherson chegou a colocar uma sequência de luta em «Play» que nos remetia para o videojogo “Street Fighter”), seguimos dois jovens, Bianca (Manuela Martelli) e Tomas (Luigi Ciardo), que de um dia para outro ficam órfãos após os país falecerem num acidente de viação no qual o carro ficou em tão mau estado que a jovem desconfia que aquela seja mesmo a viatura da família.
Agora sozinhos, há que tomar diversas decisões. Tomas é menor e só com o aval da irmã ficará ao seu cuidado. E assim é. Aos poucos os dois vão sobrevivendo como podem, arranjando o rapaz um trabalho num ginásio que o vai afastar da escola e aproximar-se de «dois irmãos». Eventualmente os dois homens vão viver para casa de Tomas e aos poucos começam a engendrar alguns planos criminais, acabando por elaborar um golpe que envolve roubar a fortuna a Maciste, um culturista e ex-ator (Rutger Hauer) de filmes peplum (filmes italianos de cariz histórico, muito populares na década de 60).
Se o filme vai apresentando continuamente um sério número de convencionalismos coming of age de sobrevivência dos órfãos, é quando Hauer entra em cena que o filme encontra o seu melhor momento. E isto acontece em particular devido à desconstrução da personagem de Maciste, um homem marcado pela vida, especialmente pelo que já teve (chegou a ser Mister Universo) e naquilo que se tornou: uma espécie de ruína histórica de uma Roma que já não existe e agora entregue à cegueira e ao isolamento. Nisto, mostra-se particularmente fascinante ver Hauer e Martelli interagirem sem provocar um particular desconforto no que diz respeito à sua diferença de idades, representando antes duas personagens nas quais o espectador facilmente encontra empatia, tal como um encontrou no outro.
Assim, e no todo, «Il Futuro» é um filme com interesse e desenvolvido de uma forma mais humana que moralista, sendo importante o facto de nunca a cineasta entrar pelo campo da vitimização, desculpabilização ou beatificação das suas personagens.
O Melhor: Hauer e Martinelli criam várias sequências fascinantes
O Pior: Até à entrada em cena de Hauer, este é um filme muito morno
| Jorge Pereira |

